O Pai da Terceira Via

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Vivemos no risco de um presidencialismo midiático que objetiva usar as novas tecnologias para governar sem nenhum controle. Por isso, é preciso que as Câmaras nacionais sejam dotadas de poderes autênticos. A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 26-05-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Leia a seguir.

“Vivemos sob o risco de um presidencialismo populista, que objetiva usar as novas tecnologias de comunicação, como a Internet e os blogs, para governar sem controles. Mas sem um parlamento dotado de poderes reais, não pode haver democracia”. Essa é a tese de Anthony Giddens, o ideólogo da Terceira Via e do “blairismo”. Mas o ex-reitor da London School of Economics não é só um politólogo que estuda a democracia no papel: é também um parlamentar, membro da Câmara dos Lordes, nomeado por Tony Blair.

Eis a entrevista.

Lord Giddens, assistimos, na Grã-Bretanha com Blair, assim como na Itália com Berlusconi, como na Rússia com Putin, um reforço do poder executivo com relação ao poder legislativo. Como o senhor avalia esse fenômeno?

São exemplos muito diferentes entre si. Na Rússia, há um retorno do autoritarismo, com a tendência a um partido único no parlamento e a um controle absoluto das mídias. Tão absoluto assim, nem Berlusconi obteve, mesmo que na Itália o reforço do executivo tenha aspectos preocupantes. Quanto à Grã-Bretanha, as mídias podem fazer tremer tanto o executivo quando o legislativo, como está acontecendo nestes dias com as revelações dos jornais sobre recursos gastos pelos deputados.

Do que deriva a tendência a se reforçar o executivo?

De um problema real. A mídia, quando está livre para funcionar, requer, na sociedade contemporânea, que os governos respondam às suas próprias ações durante 24 horas por dia. Muitas vezes, isso ocorre antes que haja uma reação por parte do parlamento às ações do governo. Ou antes até que a ação do governo tenha sido efetivamente completada. Vivemos na sociedade da informação em tempo real, e, diante de um controle tão insistente, os governos se deram conta da necessidade de reforçar o próprio poder.

Portanto, é um desenvolvimento necessário?

Sim, mas pode se tornar perigoso se deixarmos que ele cresça sem medida. A Internet, com a sua comunicação difusa e interativa, pode representar, para alguns líderes, uma tentação do que eu defino como presidencialismo eletrônico, um poder populista baseado no consenso expresso por pesquisas, e-mails, blogs, em vez de ser expressão do debate parlamentar. E isso seguramente é negativo, uma ameaça para a democracia.

Berlusconi disse que 100 deputados eram o suficiente no parlamento.

Um parlamento muito pequeno é um objetivo apreciável, especialmente na Itália, onde há muitos deputados. Mas não é preciso exagerar na diminuição da representatividade, no número dos deputados e no número de partidos. O bipartidarismo faz um país funcionar melhor, mas é preciso que todos os setores da sociedade sejam representados no parlamento, e isso nem sempre acontece com o bipartidarismo.

Então o papel do parlamento continua sendo essencial?

Absolutamente sim. Deve ser reformado, melhorado, adequado aos tempos. Mas lembremo-nos que toda vez que a democracia foi ameaçada, foram reduzidos, em todas as partes do mundo, os poderes do parlamento.

E o senhor gosta do seu trabalho na Câmara dos Lordes?

Sim, muito. Em linha de princípio, sou favorável a uma reforma para que os Lordes sejam eleitos pelo povo, em vez de serem nomeados pelas instituições [vitalícios, mas os assentos não são mais hereditários, como era antes da reforma aprovada por Blair]. Porém, ainda hoje a Câmara dos Lordes desempenha um papel importante de escrutínio legislativo e é composta, graças ao sistema das nomeações, por muitos especialistas em problemas mais variados. E isso também é útil.

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