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Literatura

17 de agosto de 2010

Gentilmente cedido por seu autor William Elói, o conto “O Contrato” estará na galeria dos históricos deste desconhecido caderno de anotações eletrônicas. Para mim, que organizo as publicações desse mural, um misto de gratidão e entusiasmo preenche-me ao saber que a produção do citado literato, por um instante petrificado em minha memória, foi pauta deste tímido informativo. Degustem a prosa do poeta. Divirtam-se.

Obs.: O conto ganha a sua versão, que suponho ser a definitiva (rs) dada pelo o autor.

 O  CONTRATO

      O dotô Lázaro de Jesus era um homem de sorte. Não contava mais do que vinte anos quando há trinta anos ele e Belarmino, seu compadre, descobriram um veio de ouro no nordeste. Não é difícil de se imaginar como tamanha fortuna tenha mudado radicalmente a vida do outrora  humilde homem do campo,de baixa escolaridade,filho de uma família numerosa e que guardava pouca ou nenhuma perspectivas da vida para si.Não mais,nem menos, do que foi a vida para seu pai ,Antônio Lázaro,e o de que teria sido para seu avó,”Chico da cabrocha”.O dotô Lázaro,assim gostava de ser chamado,apesar de que seu português se estendia um pouco além de seu nome, olhava por trás de sua mesa de granito ,por trás dos vidros de suas janelas  e suas persianas,seu passado, e assim tentava entender seu futuro.Viu  seu peito abrir e o sangue lhe escapar outra vez, quando Belarmino (Nunca soubera ao certo, se por ganância na partilha do ouro,ou por um boato  que corria à época,de que estava tendo um caso com a mulher dele)lhe desferiu o primeiro golpe de punhal.Viu os olhos aturdidos dos frequentadores do bar de seu maneco,as pernas das mesas rodopiarem ao ar,no meio do salão,os prato e os copos se partirem junto aos gritos,quando, naquele momento, estando cego e surdo para salvar a sua própria pele,agarrado ao  compadre,segurando-o pelas mãos sujas de sangue,enterrava a adaga que seria para si no peito de seu adversário. Passou uma semana até que fosse solto. Legítima defesa alegou seu advogado. Belarmino deixou a mulher e um filho, que nunca mais os viu. Tentaram por vezes, a princípio, pegar o que era de direito do finado, mas sem muito sucesso. Foram pra bem longe. Região norte,ouviu dizer.A viuvinha virô “puta”.O menino também se perdeu por aí…a quem dissesse que fosse  filho seu …

      O dotô Lázaro era homem vaidoso. E hoje era um dia especial. Cedo, após os primeiros anos de sua vida afortunada, descobriu todas as benesses que o dinheiro podia oferecer assim como suas extravagâncias. Gostava de ostentar isso. Carros luxuosos, perfumes franceses, roupas de fino corte, fazendas de gado com seus milhares de hectares, whiskys importados, e mulheres..mulheres e mulheres…sempre as mais belas.De preferências as que fossem capas de revista ou “Miss qualquer coisa”.Sempre disposto a cobrir qualquer que fossem seus “mimos”,desde até “onde” elas estivessem dispostas a lhe oferecer.

Sim, hoje era um dia especial. Colocou seu melhor terno e sapato. Gastou seu melhor perfume. Mas hoje o dotô não ia encontrar nenhum rosto conhecido. Alguém que vira mesmo antes em capa de revista ou em televisão. O dinheiro lhe deu muita coisa, certamente, contudo não lhe deu tanto refinamento, como queriam sua esposa e seus filhos.

A incontinência urinária já lhe importunava há certo tempo, assim como uma “tontura e uns escurecimento de vista”. Porém, nunca fez o tal exame de próstata. Nunca deixaria homem algum enfiar-lhe o dedo no cu. Não nascera para isso.  E indo ao ir ao médico, no que deveria ser um exame de rotina, descobrira ser portador de câncer, em estado avançado, como foi Antônio Lázaro, seu pai, e Chico da cabrocha, seu avô.

Dispensou os melhores médicos de que o dinheiro poderia dispor e os tratamentos indicados, como quimioterapia, apesar do apelo de sua família. Não era de sua natureza passar por isso.Temente a Deus como era não teria coragem para tirar a própria vida, muito embora não tivesse hesitado de tirar a vida de outro quando a sua é quem estava em risco. Tinha medo da danação eterna, agora mais do que nunca, por tudo que tinha feito.

 Pelas redondezas da região não raro podia se escutar a história de que o dotô Lázaro de Jesus tinha vendido a alma ao  “coisa ruim”,e ficado rico.O doutor Lázaro,lembrando talvez disso, esboçou um sorriso na solidão da sua sala, que agora estava maior do que o de costume,-É,talvez  agora “ele”venha me buscar,pensou consigo mesmo.

 Zé Maria seu capataz-afilhado, tinha-o em alta conta.  Confiava mais nele do que a qualquer outro funcionário seu, ou mesmo a qualquer um de seus filhos,e por isso não pensou duas vezes a falar-lhe de seu plano;o de pagar um assassino de aluguel para tirar-lhe a própria vida.Deveria ser algo discreto,sem muito alarde,e sua morte deveria rápida,de modo que não ficasse tão desfigurado para o enterro.Apenas um tiro.No máximo dois,na altura do peito.Colecionara alguns desafetos ao longo de sua vida. Esteve metido também com política. O álibi não seria problema. Ou poderiam simular simplesmente um latrocínio. Zé Maria tentou usar de todo o seu argumento para que seu padrinho desistisse de tal desatino. Em vão. Ele estava feito pedra em sua idéia. Por outro lado pensava baixinho Zé Maria com seus botões “Se é para agonizar em um leito de Hospital, melhor que seja assim!” Admirando-lhe mais a grandeza de espírito de seu padrinho.

Lá longe das serras, a meia noite, perto de uma encruzilhada em uma ferrovia abandonada, existe um homem que faz esse tipo de serviço. O de morte matada, por encomenda, tomou nota Zé Maria com  alguns de seus contatos no povoado. E assim foi ter com “ele” Zé Maria. Como lhe disseram, a meia-noite o encontrou. Sozinho na encruzilhada. Um tipo distinto, bem aparentado, que lhe lembrou, de alguma forma estranha, seu padrinho. Tinha consigo uma maleta de couro preta. Rapidamente apertaram-se as mãos  , tiraram seus chapeis, cumprimentado-se um ao outro, contudo, sem que  mencionassem os nomes.

Zé Maria disse-lhe de como seria o serviço, para o que e de que forma. Ao final, coisa doida se sucedeu que lhe deu calafrios. Disse-lhe “ele” –  Homem que é homem lavra seu nome com sangue- e pediu que Zé Maria pinga-se uma gota do sangue de seu dedo, cortado a faca, sobre um papel que guardava dentro da maleta.Seu contrato.Era assim que acertava seus crimes.Esse,mesmo assustado com  tal pedido,assim o fez.Quanto do acerto do pagamento “ele” retrucou-Pode deixar.Faz trinta anos que espero por isso;que estou em seu rastro.Faço isso de graça!Daqui a sete dias, diga a ele, que vou visitá-lo. Vou dar tempo pra ele se despedir de quem ele quiser e fazer o que ainda tem vontade de fazer. Diga a ele que a meia-noite de hoje a sete dias estarei  lá.Zé Maria não entendeu muito aquilo.Ficou com uma pulga atrás da orelha,mas,de todo o modo, foi tão rápido quanto chegou,dizer ao seu padrinho do contrato firmado de morte.”Sete dias” para fazer o que quisesse.Então a sua morte chegaria,sem nome e sem rosto,mais com dia e hora marcada.

Dona Francisca de Jesus, a respeitosa esposa do “dotô”, também conhecida como dona “Chica”, tava que era só tristeza. Mas também era fé. Fé  inabalável.Sempre de rosário na mão,ia as missas todos os dias,confessava uma vez a cada seis meses. Tão logo soube da gravidade da doença do marido, e da  sua recusa em fazer o tratamento médico adequado,apegou-se mais do que nunca a nossa Senhora santíssima e a são Judas Tadeu,santo das causas impossíveis.Fez  promessa em nome de seu marido.Sacrificaria dez cabeças de gado para doar ao  povo miserável da região ,uma vez ao ano na festa da padroeira.

O “dotô” achou a idéia absurda. Pior até mesmo que a sua. Mas, como lhe restava pouco tempo de vida,não queria arenga.Deixou a mulher agir com melhor lhe conviesse isso;pra se alegrar.Ele Já não tinha estímulo para muita coisa mesmo.

Nos dias que precederam “o dia”,O dotô fez tudo que podia e o que não podia.Sua família não tentou lhe impor regras ou limites.Na verdade nunca conseguiram.E não ia ser agora,a beira de sua morte que iriam lhe negar, em seus últimos dias, toda sorte de vícios  e prazeres mundanos.Dona Chica lhe pediu apenas que antes de partir,quando já estivesse muito ruim,fosse se confessar, arrependendo-se de todo o mal que tenha feito.

Ao finalzinho da tarde, do sétimo e último dia ao qual espirava-lhe a vida,segundo cláusula irrevogável, testemunhada e assinada com sangue no contrato,foi o dotô confessar-se ao pároco da comuniddade,padre Expedito.Este geralmente não atendia em tal horário,mas abriu uma exceção,diante de ilustre visita.Muitos eram os pecados do dotô,mas nada incomum para um homem.Porém, um pecado em especial deixou o velho missionário de cabelo em pé, que  agora enxugava seus óculos com mão trêmula e o suor que corria-lhe na testa.

Passadas algumas longas horas na paróquia, depois de confessados todos seus pecados, e rezado tantas aves-marias, tantos pais nossos, e credos quanto lhe cabiam à alma, chegou por fim em sua empresa. Estava vazia. Deu um recesso de uma semana a todos os seus funcionários. Lentamente, observou cada detalhe de seu patrimônio, cada item de seu palácio. Lembrou de cada olhar de temor e respeito que caia sobre si, quando bastavam que seus pés seus tocasse o seu tapete vermelho todas as manhãs. Ou sentado em seu pequeno trono, com o destino de tantas vidas em suas mãos enrugadas, sob o peso de seus anéis, que compunham seus dedos, e de sua caneta de dourada aplicando sentenças…

Olhou para o relógio grande na parede em sua sala. Dez para meia noite. Sentou-se em sua cadeira. Dizem que próximo do fim temos um dejavú. Um pequeno filme se passa na cabeça. Toda uma vida em uma velocidade impressionante. Uma coisa, porém, chamou sua atenção após alguns minutos de reflexão. Em cima de sua mesa havia um documento com o endereço da clínica ao qual havia sido diagnosticado com câncer. Tinha o nome de “urgente” e a datava de uma semana. O que poderia ser tão urgente naquela altura em sua vida?De todo modo abriu o envelope que dizia “Prezado Sr. procurar a clínica x para novos exames.Ao que tudo indica houve um equívoco em seu diagnóstico que certamente..”O doutor Lázaro de Jesus era um homem de sorte.

Ouviu-se uma batida na porta.

O relógio indicava meia-noite.

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Só pra relaxar

17 de agosto de 2010

Excelente

1 de agosto de 2010

Aprecie sem moderação. Essencial a leitura deste texto.

Manfred Max-Neef e Herman Daly: dois economistas alternativos  

Manfrede Max-Neef e Herman Daly são economistas comentados no artigo de Marcus Eduardo de Oliveira, publicado pelo EcoDebate, 18-06-2010.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor do Depto. de Economia da FAC-FITO e do Depto de Comércio Exterior do UNIFIEO (Centro Universitário FIEO). Mestre em Integração da América Latina (USP) e Especialista em Política Internacional (FESP),com especialização pela Universidad de La Habana – Cuba.

Eis o artigo.

A economia só faz sentido se for usada para atender as necessidades humanas. A economia precisa respeitar os limites físicos impostos pela natureza, até porque ela é um subsistema da bioesfera finita. Urge promover a conciliação entre a economia e o meio ambiente e extirpar o pensamento econômico tradicional que recomenda o crescimento econômico infinito e exponencial. Os agentes econômicos não são os donos da Terra, e sim seus hóspedes. Não podemos mais fingir que vivemos em um ecossistema ilimitado. O crescimento econômico permanente é impossível. Há espaço para certa irracionalidade econômica, em lugar de se pensar que todas as decisões são pautadas, exclusivamente, pela mais pura racionalidade. O eixo central da economia não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria, mas, sim, o indivíduo e suas necessidades elementares.

Não basta fazer a economia crescer para acabar com a pobreza. Contra o desemprego não basta apenas só intensificar a demanda por bens e serviços, baixando os juros e estimulando investimentos. O ritmo econômico atual baseado na exploração desenfreada de recursos naturais e no super-consumo é insustentável. A práxis econômica deve ser buscada no sentido de ser solidária, participativa e coletiva, trocando, assim, o atual modelo econômico baseado na competição pelo de cooperação. O objetivo primordial da atividade econômica não deve ser a produção de riqueza, mas, sim, o bem-estar das pessoas.

Todas essas afirmações, sem exceção, sopram em ventos contrários à ordotoxia econômica. Tais argumentos ferem uma espécie de pensamento único que tem dominado, sobremaneira, o cenário acadêmico das ciências econômicas.

As afirmações que fizemos acima refutam, na essência, os manuais de introdução à economia que são largamente usados nos cursos universitários. Esses manuais insistem em defender uma economia hermeticamente padronizada, além de propagarem a prática do individualismo em economias centradas apenas, e, tão somente, na valorização de ganhos máximos. Pouco, quase nada, é expresso em termos da valorização do indivíduo, do respeito aos limites físicos e naturais e de uma economia voltada ao bem-estar coletivo.

É nesse sentido, da refutação consistente e bem alinhada, que os chamados economistas alternativos (aqueles que fogem, pois, do dito padrão tradicional e fazem o vento soprar em direção contrária) se apresentam e vão, aos poucos, ganhando mais espaço no cenário acadêmico.

Relacionando temas como economia e meio ambiente, economia comportamental (ou psicologia econômica), e os mais inusitados temas e situações do coditiano, alguns desses economistas já são, hoje, vistos como referência.

A economia ecológica

No que toca, em especial, as preocupações com o meio ambiente, desde os primeiros trabalhos acadêmicos sobre essa questão, na década de 1970, defendidos por Nicholas Georgescu-Roegen, principalmente com a publicação de The Entropy Law and the Economic Process, as preocupações com o meio ambiente tem sido trazidas à tona dentro da análise econômica. É verdade que não com a intensidade que se espera, dada a gravidade do problema em se pensar, de forma tradicional, que uma economia mais produtiva e mais abundante, em matéria de bens e serviços, será a solução de todos os males que afligem o mundo.

O fato é que os economistas alternativos, ou os ecologistas da economia, têm trabalhado intensamente para propagarem suas idéias em torno da conscientização de todos para os graves problemas e conseqüências que cercam o modo de produção da atualidade.

É, pois, na mesma linha de pensamento de Roegen que, infelizmente continua sendo ignorado pela comunidade acadêmica, como ignorado também continua o prêmio Nobel de Química, Frederick Soddy (1877-1956) – um dos precursores da economia ecológica -, que o professor da Universidade de Maryland, Herman Daly, vem fazendo críticas consistentes ao atual sistema que insiste em não olhar para a questão ambiental como se deve.

Daly tem insistido, veementemente, sobre a necessidade de levar em conta os efeitos da atividade econômica sobre os recursos naturais não renováveis.

O ponto básico do pensamento de H. Daly é a idéia daquilo que ele intitulou “crescimento deseconômico”, ou seja, aquele crescimento que, pela expansão da economia, afetou (e afeta) excessivamente o ecossistema circundante sacrificando o capital natural (peixes, minerais, a água, o solo, o ar…).

Daly salienta que uma vez ultrapassado a escala de crescimento ótimo, esse crescimento torna-se custoso e estúpido no curto prazo e impossível de ser mantido no longo. A prática maciça desse “crescimento deseconômico” tem um final já vaticinado: uma catástrofe ecológica que tende a reduzir sensivelmente o padrão de vida de todos os hóspedes do planeta Terra.

É nesse pormenor que a economia tradicional (a que consta dos manuais) peca de forma considerável, pois não reconhece, ou ignora, por exemplo, que a biosfera, além de ser finita, não cresce e é fechada.

É por ir contra essa economia tradicional que cerra os olhos para essa questão, que os trabalhos dos economistas alternativos vem ganhando corpo.

No entanto, ir contra o pensamento tradicional, enraizado por longa data, não é tarefa fácil. Essa dificuldade esbarra, em grande medida, no fato de que os ditos padrões estão, há muito, bem estabelecidos. Um desses padrões mais expostos, por exemplo, recomenda que o modelo de qualidade e felicidade (utilidade) de cada um está no acúmulo de bens materiais.

Para isso, a receita econômica é simples: basta fazer a economia produzir mais, afinal, um belo dia, esse crescimento excessivo chegará a nossas mãos em termos de mais produtos disponíveis no mercado de consumo. Será? É claro que não! Para tudo há algo que a tradicional teoria econômica não percebeu: existem limites.

Percebe-se, então, que para a teoria econômica convencional o que importa são mais produtos; portanto, deve-se buscar, a qualquer custo, aumentar a quantidade (crescimento). Essa teoria ortodoxa convencional não “entende” que quantidade (crescimento) não significa qualidade (desenvolvimento).

É pela qualidade, e não pela quantidade, que o economista chileno Manfred Max-Neef vem lutando, arduamente, para implantar novos modos de produção econômica em que as pessoas sejam alçadas para o primeiro plano, em lugar dos objetos.

Para Max-Neef, o crescimento econômico está alinhado à qualidade de vida das pessoas até certo ponto. Ultrapassado esse ponto, não há ganhos, mas sim perdas; não há benefícios, mas, custos, e, o principal deles, é a deterioração da qualidade de vida.

Essa é a base teórica da “Teoria do Umbral”, propugnada por Max-Neef que aponta dedo em riste para os custos excessivos do processo produtivo a qualquer preço. Custos que, por sinal, não são quantificados, mas sentidos por todos: a poluição das águas, do ar, dos solos, a degradação ambiental, a emissão de gás carbônico para se produzir de tudo e transportar para lugares cada vez mais distantes.

Para Manfred Max-Neef, esse economista alternativo ganhador do Prêmio Nobel Alternativo de Economia, uma economia “saudável” se sustenta em seis postulados:

1. A economia está para servir as pessoas, e não as pessoas para servir a economia;

2. O desenvolvimento se refere a pessoas, e não aos objetos;

3. O crescimento não é o mesmo que desenvolvimento, e o desenvolvimento não precisa necessariamente de crescimento;

4. Nenhuma economia é possível à margem dos serviços que prestam os ecossistemas;

5. A economia é um subsistema de um sistema maior e finito, que é a biosfera, e, portanto, o crescimento permanente é impossível; e,

6. Nenhum processo ou interesse econômico, sob nenhuma circunstância, pode estar acima da referência à vida.

Dessa forma, vemos que a realidade econômica atual, avalizada pelos manuais econômicos tradicionais, está completamente oposta a esses princípios. E por serem esses princípios algo que faz a “roda da economia”, por vezes, travar, esses economistas alternativos, quase sempre, são taxados de personas non gratas.

Necessidades humanas preteridas

Assim sendo, por irem contra o tipo de economia que recomenda que tudo deva ser transformado em números e, por conseqüência, em valores, esses pensadores são postos à margem.

Ao praticarem uma economia em que tudo circula ao redor de números e valores, as necessidades humanas ficam cada vez mais preteridas na escala das preferências. Dessa forma, o modelo de economia que vigora é aquele em que o valor está nas prateleiras dos supermercados e nas vitrines das lojas, portanto, apenas nos produtos, e não nos seres humanos.

É contra esse tipo de pensamento econômico que Herman Daly, Manfred Max-Neef, Riane Eisler, Gary Backer e tantos outros estão construindo suas opiniões. Foi contra isso que Georgescu-Roegen marcou presença.

Definitivamente, a economia não está nos números, mas sim nas pessoas. Pessoas que agem, que sentem, que fazem e que pensam a economia (atividade econômica) em seu dia a dia.

Mesmo que esse pensamento esteja nos mais inusitados assuntos, nas mais interessantes situações, a economia, certamente, lá está (e estará) presente. Basta, para isso, atentar para as recentes abordagens de outros economistas que também podem ser classificados como economistas alternativos, que são capazes de observar fatos econômicos onde poucos enxergam tal ocorrência.

Outros economistas alternativos

Mas as obras que versam sobre esse olhar diferenciado da economia não param de surgir. Muitos têm sido os casos de novos autores que estão explorando esse lado “oculto” das ciências econômicas. É o caso específico de Steven Levitt e Stephen Dubner, com “Freakeconomics”, que se tornou, em pouco tempo, best-seller em vários lugares. É o caso ainda de Tim Harford, com “O Economista Clandestino”; de Diane Coyle, com “Sexo, Drogas e Economia”; de Riane Eisler, com “A Verdadeira Riqueza das Nações” e, principalmente, dos trabalhos do economista norte-americano laureado com o Nobel, Gary Becker, que levou o prêmio justamente por ter estendido o domínio da análise microeconômica para uma escala de comportamento humano e interações, incluindo o comportamento extra-mercado. Becker chega a analisar situações inusitadas como crime, divórcio e consumo de drogas à luz do comportamento econômico de cada um.

Para finalizar, cumpre ressaltar, nesse pormenor, as mais recentes abordagens sobre a Teoria da Economia Comportamental ou “psicologia econômica” que, aos poucos, vem dominando a leitura das novas gerações, à medida que incorpora em suas análises certo grau de irracionalidade econômica nas ações das pessoas, contrariando, assim, a teoria tradicional que preconiza que toda e qualquer ação do indivíduo está pautada pela mais absoluta racionalidade econômica.

Como podemos perceber, o “mundo econômico” exposto nos livros-técnico-didáticos, não é bem assim, como tenta nos fazer crer a ortodoxia econômica.