Literatura

Gentilmente cedido por seu autor William Elói, o conto “O Contrato” estará na galeria dos históricos deste desconhecido caderno de anotações eletrônicas. Para mim, que organizo as publicações desse mural, um misto de gratidão e entusiasmo preenche-me ao saber que a produção do citado literato, por um instante petrificado em minha memória, foi pauta deste tímido informativo. Degustem a prosa do poeta. Divirtam-se.

Obs.: O conto ganha a sua versão, que suponho ser a definitiva (rs) dada pelo o autor.

 O  CONTRATO

      O dotô Lázaro de Jesus era um homem de sorte. Não contava mais do que vinte anos quando há trinta anos ele e Belarmino, seu compadre, descobriram um veio de ouro no nordeste. Não é difícil de se imaginar como tamanha fortuna tenha mudado radicalmente a vida do outrora  humilde homem do campo,de baixa escolaridade,filho de uma família numerosa e que guardava pouca ou nenhuma perspectivas da vida para si.Não mais,nem menos, do que foi a vida para seu pai ,Antônio Lázaro,e o de que teria sido para seu avó,”Chico da cabrocha”.O dotô Lázaro,assim gostava de ser chamado,apesar de que seu português se estendia um pouco além de seu nome, olhava por trás de sua mesa de granito ,por trás dos vidros de suas janelas  e suas persianas,seu passado, e assim tentava entender seu futuro.Viu  seu peito abrir e o sangue lhe escapar outra vez, quando Belarmino (Nunca soubera ao certo, se por ganância na partilha do ouro,ou por um boato  que corria à época,de que estava tendo um caso com a mulher dele)lhe desferiu o primeiro golpe de punhal.Viu os olhos aturdidos dos frequentadores do bar de seu maneco,as pernas das mesas rodopiarem ao ar,no meio do salão,os prato e os copos se partirem junto aos gritos,quando, naquele momento, estando cego e surdo para salvar a sua própria pele,agarrado ao  compadre,segurando-o pelas mãos sujas de sangue,enterrava a adaga que seria para si no peito de seu adversário. Passou uma semana até que fosse solto. Legítima defesa alegou seu advogado. Belarmino deixou a mulher e um filho, que nunca mais os viu. Tentaram por vezes, a princípio, pegar o que era de direito do finado, mas sem muito sucesso. Foram pra bem longe. Região norte,ouviu dizer.A viuvinha virô “puta”.O menino também se perdeu por aí…a quem dissesse que fosse  filho seu …

      O dotô Lázaro era homem vaidoso. E hoje era um dia especial. Cedo, após os primeiros anos de sua vida afortunada, descobriu todas as benesses que o dinheiro podia oferecer assim como suas extravagâncias. Gostava de ostentar isso. Carros luxuosos, perfumes franceses, roupas de fino corte, fazendas de gado com seus milhares de hectares, whiskys importados, e mulheres..mulheres e mulheres…sempre as mais belas.De preferências as que fossem capas de revista ou “Miss qualquer coisa”.Sempre disposto a cobrir qualquer que fossem seus “mimos”,desde até “onde” elas estivessem dispostas a lhe oferecer.

Sim, hoje era um dia especial. Colocou seu melhor terno e sapato. Gastou seu melhor perfume. Mas hoje o dotô não ia encontrar nenhum rosto conhecido. Alguém que vira mesmo antes em capa de revista ou em televisão. O dinheiro lhe deu muita coisa, certamente, contudo não lhe deu tanto refinamento, como queriam sua esposa e seus filhos.

A incontinência urinária já lhe importunava há certo tempo, assim como uma “tontura e uns escurecimento de vista”. Porém, nunca fez o tal exame de próstata. Nunca deixaria homem algum enfiar-lhe o dedo no cu. Não nascera para isso.  E indo ao ir ao médico, no que deveria ser um exame de rotina, descobrira ser portador de câncer, em estado avançado, como foi Antônio Lázaro, seu pai, e Chico da cabrocha, seu avô.

Dispensou os melhores médicos de que o dinheiro poderia dispor e os tratamentos indicados, como quimioterapia, apesar do apelo de sua família. Não era de sua natureza passar por isso.Temente a Deus como era não teria coragem para tirar a própria vida, muito embora não tivesse hesitado de tirar a vida de outro quando a sua é quem estava em risco. Tinha medo da danação eterna, agora mais do que nunca, por tudo que tinha feito.

 Pelas redondezas da região não raro podia se escutar a história de que o dotô Lázaro de Jesus tinha vendido a alma ao  “coisa ruim”,e ficado rico.O doutor Lázaro,lembrando talvez disso, esboçou um sorriso na solidão da sua sala, que agora estava maior do que o de costume,-É,talvez  agora “ele”venha me buscar,pensou consigo mesmo.

 Zé Maria seu capataz-afilhado, tinha-o em alta conta.  Confiava mais nele do que a qualquer outro funcionário seu, ou mesmo a qualquer um de seus filhos,e por isso não pensou duas vezes a falar-lhe de seu plano;o de pagar um assassino de aluguel para tirar-lhe a própria vida.Deveria ser algo discreto,sem muito alarde,e sua morte deveria rápida,de modo que não ficasse tão desfigurado para o enterro.Apenas um tiro.No máximo dois,na altura do peito.Colecionara alguns desafetos ao longo de sua vida. Esteve metido também com política. O álibi não seria problema. Ou poderiam simular simplesmente um latrocínio. Zé Maria tentou usar de todo o seu argumento para que seu padrinho desistisse de tal desatino. Em vão. Ele estava feito pedra em sua idéia. Por outro lado pensava baixinho Zé Maria com seus botões “Se é para agonizar em um leito de Hospital, melhor que seja assim!” Admirando-lhe mais a grandeza de espírito de seu padrinho.

Lá longe das serras, a meia noite, perto de uma encruzilhada em uma ferrovia abandonada, existe um homem que faz esse tipo de serviço. O de morte matada, por encomenda, tomou nota Zé Maria com  alguns de seus contatos no povoado. E assim foi ter com “ele” Zé Maria. Como lhe disseram, a meia-noite o encontrou. Sozinho na encruzilhada. Um tipo distinto, bem aparentado, que lhe lembrou, de alguma forma estranha, seu padrinho. Tinha consigo uma maleta de couro preta. Rapidamente apertaram-se as mãos  , tiraram seus chapeis, cumprimentado-se um ao outro, contudo, sem que  mencionassem os nomes.

Zé Maria disse-lhe de como seria o serviço, para o que e de que forma. Ao final, coisa doida se sucedeu que lhe deu calafrios. Disse-lhe “ele” –  Homem que é homem lavra seu nome com sangue- e pediu que Zé Maria pinga-se uma gota do sangue de seu dedo, cortado a faca, sobre um papel que guardava dentro da maleta.Seu contrato.Era assim que acertava seus crimes.Esse,mesmo assustado com  tal pedido,assim o fez.Quanto do acerto do pagamento “ele” retrucou-Pode deixar.Faz trinta anos que espero por isso;que estou em seu rastro.Faço isso de graça!Daqui a sete dias, diga a ele, que vou visitá-lo. Vou dar tempo pra ele se despedir de quem ele quiser e fazer o que ainda tem vontade de fazer. Diga a ele que a meia-noite de hoje a sete dias estarei  lá.Zé Maria não entendeu muito aquilo.Ficou com uma pulga atrás da orelha,mas,de todo o modo, foi tão rápido quanto chegou,dizer ao seu padrinho do contrato firmado de morte.”Sete dias” para fazer o que quisesse.Então a sua morte chegaria,sem nome e sem rosto,mais com dia e hora marcada.

Dona Francisca de Jesus, a respeitosa esposa do “dotô”, também conhecida como dona “Chica”, tava que era só tristeza. Mas também era fé. Fé  inabalável.Sempre de rosário na mão,ia as missas todos os dias,confessava uma vez a cada seis meses. Tão logo soube da gravidade da doença do marido, e da  sua recusa em fazer o tratamento médico adequado,apegou-se mais do que nunca a nossa Senhora santíssima e a são Judas Tadeu,santo das causas impossíveis.Fez  promessa em nome de seu marido.Sacrificaria dez cabeças de gado para doar ao  povo miserável da região ,uma vez ao ano na festa da padroeira.

O “dotô” achou a idéia absurda. Pior até mesmo que a sua. Mas, como lhe restava pouco tempo de vida,não queria arenga.Deixou a mulher agir com melhor lhe conviesse isso;pra se alegrar.Ele Já não tinha estímulo para muita coisa mesmo.

Nos dias que precederam “o dia”,O dotô fez tudo que podia e o que não podia.Sua família não tentou lhe impor regras ou limites.Na verdade nunca conseguiram.E não ia ser agora,a beira de sua morte que iriam lhe negar, em seus últimos dias, toda sorte de vícios  e prazeres mundanos.Dona Chica lhe pediu apenas que antes de partir,quando já estivesse muito ruim,fosse se confessar, arrependendo-se de todo o mal que tenha feito.

Ao finalzinho da tarde, do sétimo e último dia ao qual espirava-lhe a vida,segundo cláusula irrevogável, testemunhada e assinada com sangue no contrato,foi o dotô confessar-se ao pároco da comuniddade,padre Expedito.Este geralmente não atendia em tal horário,mas abriu uma exceção,diante de ilustre visita.Muitos eram os pecados do dotô,mas nada incomum para um homem.Porém, um pecado em especial deixou o velho missionário de cabelo em pé, que  agora enxugava seus óculos com mão trêmula e o suor que corria-lhe na testa.

Passadas algumas longas horas na paróquia, depois de confessados todos seus pecados, e rezado tantas aves-marias, tantos pais nossos, e credos quanto lhe cabiam à alma, chegou por fim em sua empresa. Estava vazia. Deu um recesso de uma semana a todos os seus funcionários. Lentamente, observou cada detalhe de seu patrimônio, cada item de seu palácio. Lembrou de cada olhar de temor e respeito que caia sobre si, quando bastavam que seus pés seus tocasse o seu tapete vermelho todas as manhãs. Ou sentado em seu pequeno trono, com o destino de tantas vidas em suas mãos enrugadas, sob o peso de seus anéis, que compunham seus dedos, e de sua caneta de dourada aplicando sentenças…

Olhou para o relógio grande na parede em sua sala. Dez para meia noite. Sentou-se em sua cadeira. Dizem que próximo do fim temos um dejavú. Um pequeno filme se passa na cabeça. Toda uma vida em uma velocidade impressionante. Uma coisa, porém, chamou sua atenção após alguns minutos de reflexão. Em cima de sua mesa havia um documento com o endereço da clínica ao qual havia sido diagnosticado com câncer. Tinha o nome de “urgente” e a datava de uma semana. O que poderia ser tão urgente naquela altura em sua vida?De todo modo abriu o envelope que dizia “Prezado Sr. procurar a clínica x para novos exames.Ao que tudo indica houve um equívoco em seu diagnóstico que certamente..”O doutor Lázaro de Jesus era um homem de sorte.

Ouviu-se uma batida na porta.

O relógio indicava meia-noite.

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