Epistolas Sinantrópicas IV

Epístola

 

EPÍSTOLAS SINANTRÓPICAS n. IV

 

Ítalo de Melo Ramalho, 11.ix.2014.

 

O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa. (Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa)

 

REVENDO e com o intuito de refazer, realinhar a ordem dos meus desejos consumeristas, subverto o elenco cinematográfico, antes posto, e readequou às atuais preferências ocasionais e momentâneas, conforme a escassez pecuniária e a ansiedade que assola o profícuo mundo dos sonhos, quase que de forma deletéria, deste teimoso sinantropo. Pois bem! Quando leio, escuto, vejo… ou quando todos os sentidos sensoriais agem em um só átimo e me sinto encantado. E nesse instante acende-me uma curiosidade: socorro-me imediatamente do papel e do lápis e anoto. Quando em vez espero a sazão, pacientemente, para o deleite.

Fiz uma lista, dessas enfadonhas listas de fim de ano, que caracteriza-se mais pelo arroto intelectual, pelo conflito pavonesco entre os semelhantes, do que propriamente pelo sóbrio e fraterno instinto de comunhão. Nessa listagem, que não cheguei a publicar por particular razão, selecionei algumas películas lançadas nos anos de 2013 e 2012. É assim mesmo, em ordem decrescente. Numa delas, deparo-me com essa fustigante frase extraída de um diálogo: “Nada nos torna mais vivo do que ver os outros morrerem.”* Achei maravilhoso e assustador! Não lembro exatamente de qual obra colhi essa simbólica e estarrecedora oração. Porém, prometo ao fim informar-lhes.

As peripécias que envolvem esse fabuloso axioma, permiti redescobrir e, com isso, readequá-lo aos momentos de açoite que mistificam e mitificam o contexto aprisionador ou que margeiam o tormento tão bem pintado pelo vate renascentista dos sertões itálicos. Ultrapassar essas barreiras, desafiar os circulares destinos, fundir-se ao mundo num todo, é típico da humanidade. Nós que habitamos esse ensolarado dorso, sabemos traduzir sentimentos: mesmo encontrando-se sob feitiço, o tambor.

Já falei há algumas semanas sobre a purificação que a morte autentica em nossos mundos (im)permeáveis e (in)sensíveis. Confesso aos Senhores e as Senhoras, que o grandioso campo da psicanálise tem feito morada em meu reduzido juízo experimental, contudo, não disponho em aventurar-me nessa jornada. Ficarei com a semântica. É mais seguro pra vocês! Muito embora não seja para mim. Retornando: que tipo de morte é essa? Bom! Divido, reduzidamente, apenas em duas categorias: 1. A morte biológica, que poderá dar às horas a qualquer momento, afetando a parte que fica; e 2. A morte edificante, que é plural e entrecorta lavouras de distintas semeaduras. As intermitências que percorrem toda curvatura da linha do tempo, é inerente ao cimo dos castelos erigidos. Sejam eles fortalezas ou casas de taipas, sempre o fascínio dos movimentos retos ou sinuosos, exercerá sobre nós a prerrogativa da dúvida. A feliz Sabedoria da dúvida! Meu Deus, que dor de cabeça conceituar essas duas subcategorias de uma mesma categoria nesse insidioso texto. Às rédeas escapolem e temo que o caráter comedido ceda lugar ao histriônico que, silenciosamente, emerge ao seu corpo. Prometo afinar à pena antes que seja tarde.

O que faz sentir-me mais vivo é quando às lágrimas escorrem ladeira abaixo, deslizando por entre os sulcos sem serem represadas e desaguando na boca, no algodão ou no solo. Apreciar àquelas gotículas, que mais parecem um oceano que transborda incontidamente é valer-me de combustível vital para aqui afirmar: não apenas a morte me torna mais vivo, mas a própria vida! E nela está à vida do próximo, que é primordial para que a sensação de vida completa, inteira, sem ranhuras me atinja, me submeta ao demasiado sagrado e também ao demasiado profano. Ademais, citarei a dádiva do nascimento. O nascimento da tragédia no dizer Nietzscheano que é libertário. E nos desabotoados corações similares ao meu, quando sobressai um impulso desmedido que advém do ouvir o choro inaugural de uma criança, descadencia suas antes rítmicas e constantes batidas.

O que faz sentido é: deixar-se vazar apenas de Amor!

Não escrevo com intenção de desencadear um otimismo, não! Estou a léguas de sê-lo! Tampouco sou pessimista. O que me move é a eloqüente força da Esperança!

*Filme: Holy Motors, de Leos Carax.

 

DICAS:

  1. LIVRO: A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Júnior.
  2. CINEMA: Pietá, de Kim Ki-duk.
  3. VÍDEO: Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Massagão. https://www.youtube.com/watch?v=QaNQR5wU46w.
  4. MÚSICA: CD Renato Braz, de Renato Braz.

 

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