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Sobre quarentenas e aquarelas ou uma tarde vestida de cor

20 de outubro de 2016

SOBRE QUARENTENAS E AQUARELAS ou UMA TARDE/NOITE VESTIDA DE COR.

Quarenta dias e um oceano no meio. Tanto de tempo e tanto de espaço a separar esse amor-ímã que demorou uma década até a explosão… E agora… Quarenta! Hão de ser fortes os corações do Catingueira e da Brucha para converter “uatizape” e “messengem” em bálsamo para a saudade doida e doída que virá? O que reserva o crepuscular trigésimo dia e a trigésima noite a essa “dupla de dois” que, de positivo em positivo, de negativo em negativo, se empenha no corte, recorte, montagem, desmontagem e remontagem dessa película afetiva? Pois bem! E foi assim que o pincel bordou:
Brucha:

Seu rosto
hoje
é tatuagem
e espelho.
Tatuagem
na carne que me veste;
espelho
no limite interno
do olhar
que aprendeu o gosto
de amar.

Catingueira:

Seu verbo salta ligeiro
Que nem maracajá.
É tatuagem no espelho
E no escuro refletirá.
Se transforma em repentista
Grande alma, grande artista,
Borda versos pra trovar.

 

E veio! Não restavam questionamentos! O equinócio das horas chegou em tempo real! Apesar das cinco horas de fuso horário, não houve impedimentos que saciassem o voraz desejo do encontro sobre o mar tenebroso (Oceano Atlântico) e tudo se converteu em palavras, imagens e voz, que, no enfrentamento da contagem longamente regressiva, afirmava, gesto a gesto, a permanência do que se inaugura eterno.

Ele, generoso como sempre, aderiu ao fuso horário dela e passou a dar bom dia às duas da manhã e às quatro ouvir as novidades da sua Brucha. Ela, dengosa como sempre, enviando rumas de carinho, apaixonada pela promessa de barba que em barbudo se fez.

E da quarentena nasceu uma aquarela! Cinco horas de um repente engraçado! Cinco horas de uma peleja matizada pelo sonoro ponteio afiado e afinado no diapasão coronário. Ela postando montagens fotográficas de um lado, ele, de outro, respondendo com poemas. Amor convertido em improviso. Gestos côncavos e convexos inserindo mais uma experiência única nessa história lúdica e lúcida.

E a aquarela foi ganhando cores e quando à Brucha parecia que para o Catingueira difícil seria fazer saltarem mais palavras, ela perguntava: “Posso mandar outra?” E a resposta: “Arrocha!”. E nessa fábula de traços verídicos que se desenhava, o espantoso foi encontrar cores para alimentar o fulgor criativo da Brucha e do Catingueira. Era improvável que naquele momento de incisão, cirurgiões como Picasso, Monet, Matisse… viessem estancar o minadouro que confluía esse rio ao célebre Rio São Francisco. Inimaginável!

Quatorze variações. Cores tingindo esse amor cheio de amores. E o tempo da quarentena perdeu-se no infinito que só as horas bonitas têm! Entre publicáveis e não publicáveis, dada a criatura desse ser Moreno de muitas sedes, os poemas do Catingueira pintaram para a Brucha um quadro de palavras mágicas enfeitado por versos como:

Cor da ferrugem e do ouro
Do jerimum e do sol.
Mistura de mito e de touro
Toque de Midas no arrebol.
Sumo de laranja-lima
Vou casar com essa menina
Uma mulher vestida de Sol.

Por outro lado, a Brucha caprichava nos fotopoemas nos quais a imagem congelava a magia plantada em vias de semeadura. Ao mesmo instante, a danada imprimia movimentos para um novo semear. Para muitos a colheita pode tardar ou até mesmo não ser possível! Não adianta preparar o solo, ter boa semente, abundância líquida-mineral, matriz animal… não adianta! Senão tiver o toque da retina, a planta não fala com a gente.

E assim se deu a peleja. Entre imagens e versos, entre ponteiros e saudade, essa quarentena logo será história. Mas a memória que deixa faz a saudade ter valido a pena.

Segue as aquarelas:

Ela:

Azul

Saudade azul

de olhos morenos

atravessando o mar

azul é a cor de te amar

Ele:

Vestuta feiticeira!
Brucha da alquimia!
Gata não berra, mia,
À luz da bulandeira.
Seu jeito tem encanto
Meu regaço, meu recanto,
A trincheirar dia a dia.

Ela:

Vermelho
Em vermelho

ponteiros me voam

no desejo de te amar.

Ele:

Azul é a cor da alegria!
O vermelho é da guerra!
Sangue vencido na terra
De céu se revestia.
Se os ponteiros alados
Adiantam o atrasado
Tempo que a coruja pia.

Ela:
Branco
Tenho um sonho branco

de te navegar.

Ele:

Gato berra, bode mia,
Boi ladra, cachorro pia.
Porco relincha, pombo fala,
Macaco desenha e burro cala.
No alfabeto dos bichos,
Não vejo nenhum fuxico,
Que não me faça te amar!

Ela:
Preto e branco
Em preto e branco

bem colorido

sabemos  amar.

Ele:

Se uma cor é singular,
Duas em diante é plural.
Três cores são uma festa,
Quatro cromos mineral.
Cinco tamanhos de universo,
Seis rimas em prosa e verso,
Sete luzes no pragal.

Ela:
Verde
Em vários tons

de verde esta sede

de te beijar.

Ele:

Um risco solto no ar,
Duas linhas paralelas;
Três verdes de te beijar,
Quatro sedes de beber;
Cinco desejos tomados,
Seis cálices sagrados
Da Mulher que vou sorver.

Ela:
Preto
Um amor preto

pleno até na ausência.

Ele:

Ausência demais é preto.
Brilho demais encandeia.
Preto demais enoitece.
Brilho demais enfeia.
Galega no ponto certinho.
Moreno bem coradinho,
Amor de vazante e de cheia.

Ela:
Cinza
Ainda nas horas

das cinzas,

as mesmas cores em nós.

Ele:

Os nós que atam laços,
Também atam as cores.
Cinza do chumbo e do aço,
Lembranças de dissabores.
Saudade do tempo futuro,
Erguida casa sem muro,
Chão dos nossos amores.

Ela:
Laranja
Um amor que esbanja

laranja

em cor e sumo.

Ele:

Cor da ferrugem e do ouro
Do jerimum e do sol.
Mistura de mito e de touro
Toque de Midas no arrebol.
Sumo de laranja-lima
Vou casar com essa menina
Uma mulher vestida de Sol.

Ela:
Roxo/lilás
Nessas brincadeiras que o amor faz,

nos amamos do roxo ao lilás!

Ele:

Cor da estola cristã,
Vestida na cúria romana.
Talvez sem carne, pagã!
Olho do pus que emana.
Fora dessa ratoeira
Construímos brincadeiras
De manhã para manhã.

Ela:
Amarelo
Na luz

de nosso elo

nos amamos

em amarelo.

Ele:

Se juntarmos uma a outra
Cada argola faz um elo.
Prata fundida na pira
Desenho, forma de anelo.
Fogo desmancha saudade.
Saudade ganha liberdade
Que sentimento singelo!

Ela:
Pele
Em nosso contraste de peles,

as cores que o desejo escreve.

Ele:

Menina ouro-azul
Do couro rijo e rosado.
Viço de flor juvenil
Doce de fruta flambado.
Quando penso em tua pele
Minha Vida estremece
Fico sem chão e corado.

Ela:
Listras
Num mundo feito de listras,

nosso amor desenha conquistas.

Ele:

Cromo tempo da Vida
Que Cronos não alcançou.
Contraste de cor esquecida,
Que futigado salvou.
Hora sem tempo final
Desenha romance real
Vida por sobre Vida!

Listras daqui e d’acolá.
Listras em tons escuro
Num castelo sem muro
Listra para contrastar.
Listra de malabarista
Equilibra a conquista
Dos malabares a fiar.

Ela:

Rubro-negro
Urubu, dragão, elefante…

Nosso amor tem conquista constante.

Ele:

Duas camisas distintas:
Eu sou ABC, Ela é Confiança.
Encontramos semelhança
Quando rubro-negro pinta.
A tinta escorre na cidade,
Finta também a saudade
A tempo de ser extinta.

Ela:
Paleta
Na paleta do nosso amor

universo infinito de cores.

Ele:

Paleta pode ser cama,
Cama pode ser vida,
Vida pode ser amor,
Carne, mas sem ferida.
Saudade sem esperança
Não quero, sem confiança!
Morte na vida da Vida!

 

Texto escrito por Christina e Ítalo Ramalho. 

20.X.2016