Crônica

CRÔNICA: Mentir por amor à arte

 

Sábado, quatro de março do ano de dois mil e dezessete. Um dia comum como qualquer pauta de diário/semanário político, a não ser pela saudosa lembrança da minha encantadora Vovó Maria que teria feito 101 outonos no dia 3.

Sábado: quatro de março. Aracaju, Sergipe. Estou folheando, numa desarmoniosa dança festiva, bela e lúdica, alguns alfarrábios. Tenho em mãos pares de livros com palhas e cabelos diferentes, semelhantes ao milho verde, assado no braseiro cinza e pálido do carvão. Assim, debulho, página a página, com a ânsia da fome nas palmas das mãos, e remeto à boca o cereal, mastigando-o impiedoso num transe osmótico entre o que é e o que passará a ser.

Sábado, 4 de março de 2017, 8h02min. Uma flauta doce atravessou, vertiginosamente, a orquestra num rasgo de romper os mais duros tímpanos de cimento: “…trinta ovos grandes e vermelhos por dez reais!…”. Foi o que ainda consegui escutar! Fiquei puto ao passo que também em contentamento entrei! Pois era sábado e iria à feira popular com a Galega. E fomos!

Nas feiras livres de rua, se veem barões e damas sem capas e sem espadas e com o colorido real do nosso povo. Aquela história de encontrar as três matrizes que fundiram, marcaram, perpetuaram e perpetuam o mosaico brasileiro mencionado por teses e estudos: É verdade! Aqui, feirante e freguês, frutas e hortaliças, legumes e carnes, atravessam a rápida manhã entre negociatas, reclamações, risos e um “fica com Deus”, ou a sua variante ótica “vai com Deus”, com a sensação de que ambos estão felizes com o fim do “escambo” monetário.

Sigo feliz e saltitante com ela. Desbravando ruas e vielas da velha Atalaia. Quando, incomodada com o meu lamber de lábios, ela me interpela: “Amor, você não vai comprar uma cervejinha?”. Fiquei assustado, mas não me fiz de rogado e respondi de pronto: “Vou sim, meu Amor! Tem um depósito de bebidas bem pertinho da nossa casa que já vende geladinha. No ponto!”. Nós iríamos ao churrasco natalício de Márcia, querida madrinha e, portanto, querida amiga, e achamos melhor comprar algumas latinhas para garantir o meu banho hepático semanal. Foi quando se deu o inesperado no bem-fadado depósito!

“Bom dia!”, cumprimento a senhora mecanicamente. “Bom dia!”, respondeu a minha interlocutora. “A senhora pode me informar o valor da Brahma? A Skol é vinte e três reais, já vi!”. Ela: “Essa Brahma aí é vinte nove reais! É sem álcool! Num tem graça não! Agora a que deixa o povo todo sorrindo de nuca a nuca é essa vermelha. Ela deve ter uns pedacinhos de cachaça na lata. Bem geladinha é boa demais! O senhor gosta?”.  Naquele momento a minha vontade era saber o valor, pagar e voltar pra casa, porém, essa beleza de pessoa me conquistou. Então me disse o valor do pacote com uma dúzia e continuou proseando: “O senhor não é daqui não? Tem um sotaque bonito”. Respondi: “Sou não! Sou de Guarabira, Paraíba. Já ouviu falar? Também morei muito tempo em Natal, Rio Grande do Norte”. Na bucha, ela me disse: “Natal eu já ouvi: terra dos Santos Reis! Mas essa tal de Guarabira na Paraíba, nunca não!”. Falei: “Pois a senhora é a primeira pessoa que não conhece essa cidade. Ela é sagrada. Tem a estátua de Frei Damião e também é conhecida pela incidência de óvnis”. Passaram alguns segundos e… “Lembrei, meu filho! Essa cidade só escutei uma única vez na rima de um menestrel desses que andavam pelas vísceras do nordeste. O camarada disse, numa mentira deslavada, que foi nesse canto que ele comeu mocotó de traíra. Já se viu peixe com mocotó?! Não aguentei e pipoquei no mei do mundo com minha irmã mais velha que gostava dessas asneiras rimadas. Nem ela acreditou!” E o riso correu frouxo no depósito. Parecia até que o Cristo tinha saído da cruz e cagoetado bispo, pastor, padre…! Naquele instante entrou um elemento franzino, ressacado e de cara fechada. Caminhou mais um pouco e parou todo espichado. Pescoço, braços e pernas estirados. Parecia que o condenado havia sido empalado e ali necessitava de socorro urgente. Disse o calango: “Bom dia! Se a latinha ainda for dois e cinquenta, eu quero duas, das Dores! Uma agora e outra depois!”. E sapecou a cédula de cinco reais no balcão. Ficamos em silêncio e a minha interlocutora deu preferência ao calango elétrico e, só em seguida, me confidenciou: “Esse é Ivan, o terrível! Ficou assim de tanto beber vodca. Ele acreditava que era russo. Agora ele tá melhorando o juízo, já sabe que é corno!”. Mais uma gaitada! Desse vez silenciosa!

Ao sair em direção ao carro, Ivan me olha profundamente e eu, assustado, não tenho outra saída que não seja a saudação, digo: “Aproveite o sábado de Zé Pereira, amigo. E viva a mãe Rússia!”. Ele levantou o queixo e gritou: “Viva! Se quiser conhecer a Rússia, assista ‘O lago dos cisnes’ de Tchaikovsky. É sublime, meu amigo!” E assim terminou meu atendimento.

Já em casa, de volta ao nosso quarto, encontro todo o aparato de páginas e mais páginas pedindo o toque carinhoso dos dedos e dos olhos. Conceitos e mais conceitos, pavimentando as vias do intelecto com a intenção de patrocinar a imaginação. E o estalo mágico da criação, equiparando o artífice literário a Deus. Não digo o Deus ético e gracioso que encontramos nas janelas das gentes, mas, sim, o da pós-verdade!

 

Ítalo de Melo Ramalho

8.III.2017

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