Arquivo de junho 2017

Crônica

18 de junho de 2017

CRÔNICA: O Amor me sequestrou!

 

O Amor me sequestrou há exatos onze anos!

Foi no mural localizado no Centro de Ciências, História, Letras e Artes, bem pertinho da casa da xerox e da zona de informação que socorre os/as desavisados/as que por ali passeiam; de frente para os degraus que levam os/as transeuntes ao segundo piso do famoso CCHLA (Chinchila! Que pronúncia saborosíssima!) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, que o sequestro relâmpago se deu por inteiro encantamento. Foi um fogo tão abrasador que acendeu desde o primeiro olhar no olho da fera, e que perdurou por quase infinitos (graças a Deus!) longos dez anos e que perdurará ao largo dos infortunados pontos finais.

Particularmente, vejo o Amor como a montagem de uma fogueira para, só depois, sentir-se a ardência do fruto que nela é guardado. Primeiro, viaja-se por dentro da flora bela e hostil, e recolhe-se o tronco mais grosso e lenhoso, para sedimentar, no altar, o alicerce das chamas. A madeira tem que ser pesada; de lei; de eros e psiquê! Que a árvore escolhida faça o fio do machado verter água da lâmina “assassina” e que, depois de feita essa ruptura de mundos, o utensílio do corte transforme-se em pena e siga a sina do sósia do Cosme Velho. Sempre vertendo o mel fino a cada esquina transposta em números de rodapé.

Terminada essa fase. Esses primeiros passos. Segue-se para a ornamentação da estrada a ser pavimentada e ocupada pela minúscula fagulha do grão. Vocês devem saber que as montagens dos fogaréus guardam maturações e inúmeros formatos. Quanto à sazonalidade, opto pelo impulso de um “boa noite!”; já quanto à disposição arquitetônica, prefiro a triangular! (Apenas questão de gosto! Fica parecendo com castelos descansando no alto das serras.) Fechando os parênteses, voltemos ao texto. Assim, na hora de erguer a catedral de pau, faço a cama com troncos maiores e mais substanciais e só depois repouso os menores e mais formais em circunferência material por sobre o monte. Feito isso, junto à base da estrutura os gravetos secos e de boa condução das labaredas. Esses arbustos tem o mesmo papel dos anjos na cosmologia cristã!

As fogueiras são exatamente como as gentes: depois da fertilização e, consequentemente, da germinação, seguidas de podas quotidianas da vida, surge, no veio calejado pelas intempéries da harmoniosa junção Vida e Arte, o fogo da carne. E este encontra-se pronto para a combustão do torrencial fogo de pentecostes, que não é outro senão o fogo do músculo somado ao do espírito, incendiando o concreto e o abstrato ao mesmo instante. Essa luz que se põe fulgurante para uns; serena e cinza para outros; mas que é improvável não imaginar a sua existência: é o fogo da sabedoria! A existência é aquela que move e sequestra os seres humanos de forma total e não em lapsos repentinos de claridade. Esse fogo é sinônimo do fogo da eternidade. O que é para sempre porque é princípio entre os sublimes.

Hoje, sou um livre refém desse cárcere que me liberta das inconclusas liberdades antes vividas, e que me aparece tão intensamente, que a pupila do meu olho não dilata ao encará-la face a face, porque sabe que o que treme ali, não é um singelo fogo de palha, e sim, um fogo que toma as taças e as queima pelo sangue sacrificado dos homens.

Te amo, minha tocha ouro-azul!

Ítalo de Melo Ramalho. 12.vi.2017

Crônica

11 de junho de 2017

Ópera renascentista

 

Conversando em casa sobre ópera e os seus entornos, contornos e retornos artísticos, logo depois de termos assistido a uma no Teatro Atheneu aqui em Aracaju, e eu ter ficado assaz impactado (sou um iniciado nessa mais que nova diletância!) com todos os trechos apresentados dos mais belos espetáculos operísticos do mundo, afirmo – convencido como uma seta no miolo do alvo -, ser a ópera fruto do gênio renascentista: como sabemos e a historiografia dos tempos nos apresenta, o renascimento singulariza uma volta ao brilho helênico nos quesitos forma e substância. Os candeeiros acendiam e ascendiam às trevas, e os pontos-cruz bordariam, no manto escuro da membrana celeste, estrelas multicoloridas determinando o término do apocalipse e a inauguração do solo moderno e alvissareiro das luzes.

Depois da verbalização “teórica-científica”, aguardo a sentença já livre da toga parda-escura que revestia o meu trapézio, e cobri-me com absoluta certeza de que daquele ovo sairia um pinto ou uma omelete, mas que minha glória de sabedor das coisas seria, finalmente, reconhecida e aclamada.

LEDO ENGANO!

Você, elemento sinantrópico que me lê, sabe aquela risadinha que surge no canto da boca como prelúdio de uma galhofa? De uma algazarra? Pois é! O riso explodiu e os fatídicos cogumelos em face japonesa eram mínimas frações nucleares perto do que vivia naquele instante. O sonoro gás do escárnio não quebrava apenas as moléculas atômicas das minhas convicções acadêmicas: também rasgavam e trituravam as células da minha fantasia de busca intelectual! E a matéria do que já tinha sido entrou para o universo paralelo da pós-verdade. Do pseudo.

Ao entregar essa crônica para minha revisora, ela, entre o exercício da docência e o riso benevolente de quem sabe das coisas, disse: “Que drama, Moreno! Não exagere nesse tema! A ópera talvez seja a manifestação artística mais completa até hoje criada pelo ser humano. Nela podemos encontrar elementos criativos para além da música; como o teatro, a literatura, as artes visuais e tantos outros. O que é relevante não é o período germinal da espécie artística! Isso é o de menor valia. O que é medular para a humanidade é o legado cantado pelos que vieram antes e que deixou indeléveis marcas nas nossas vidas. Vem! Que besteira é essa? Vamos pra rua! É hora de combatermos o golpe e os golpistas! Isso é que é deveras relevante nesse instante! Depois veremos essas outras questões!” E saiu, mais convencida do que nunca, que a hora é agora de gritarmos: DIRETAS JÁ!

Eu, que não sou besta nem nada, agarrei-me na cintura da danada e saímos pelas ruas do centro da capital sergipana, ofertando ao público das ruas, das janelas, portas e outras marquises, o nosso mais forte grito pedindo eleições diretas. O espetáculo farsesco que é apresentado ao povo brasileiro não é senão uma ópera bufa, verossímil das oficialidades que ocupam as instituições da república nacional. É improvável olhar para esse establishment e intuir qualquer avaliação estética e muito menos ética. DIRETAS JÁ, esse é o nosso refrão!

Trapézio

2 de junho de 2017

Trapézio

Crê o trapézio
sustentar o trapezista
e a corda que abraça as
perpendiculares,
amalgama de
lenha e lã
continente gravítico
do músculo circense.

Vê o trapézio
o corpo minúsculo da célula
escrever passos na moldura
geométrica da experiência
mambembe.

Sabe o trapézio
que a massa desenha alfabetos
na atmosfera do picadeiro
e imprime no bronze
o politeísmo dúbio
da teometria torta
do medo.

Cala o trapézio
quando a costura monociclista
do moinho
pedala no equilíbrio
do pesponto
emendando a flor esférica
ao vazio do abismo.

Finda o ginasta
a hipnose elástica do exílio
quando a segunda potência
desperta o silêncio
ao som afinado de
boa noite!

Ítalo de Melo Ramalho
1.V.2017

Crônica

2 de junho de 2017

CRÔNICA: A tinta, o caderno e a dádiva

 

Para d. Terezinha Alves de Melo Ramalho

 

Ao nascer, Deus perguntou-me: “O que queres?”. Sem pestanejar, respondi: “O chão!”. Ele sorriu maliciosamente como um jogador de baralho em blefe, e percebeu que eu era igual às outras sementes: sempre à espera da canastra real. Sendo assim, retalhou e me entregou um pedaço raso de couro de carneiro medindo 19,04 por 19,74 centímetros, e disse: “Taí o seu caderno! Borde letras com fios do próprio sangue, derramando-o na geografia áspera da celulose!”.

 

Uma sensação estranha ferveu nas minhas vísceras. Fiquei atônito com aquela possível liberdade de desfiar o meu rosário de penas no infinito mundo mágico do cartear. Ora! Que liberdade seria essa se ao menos não posso querer permanecer ou, sendo mais astuto, prolongar a permanência até desaparecer no espaço como uma nuvem silenciosa que trafega para o abismo do éter? Ou será que eu poderia escolher sumir de maneira abrupta como o concreto que evapora das mãos ilusionistas do crupiê? Definitivamente estava no cárcere perpétuo das dúvidas!

 

Não havia o que fazer! Peguei o meu caderno e saí aos pinotes pelo labirinto das hostilidades. Saltando pedra em pedra! Escalando serra a serra! Submergindo vala a vala! As cortinas que se abriram e se abrem são as mesmas que se fecharam e se fecham. Os teatros e as suas encenações existem aos montes e sempre existirão! E eu mesmo ainda não tinha me dado conta de que o meu palco já se iluminara há tempos. Hoje, às vésperas dos quarenta e três anos, vejo fachada, nave e cúpula precisando de cuidados clínicos.

 

É, o tempo caminha parelho com as formas e, principalmente, com as substâncias. E falando dessa última em específico, lembro da magistral diretora que soube conduzir o elenco uno do meu mundo, com instantes de doce de leite e vestes de cambraia bordada; e outros com cenas de sola de couro e borracha da amazônia.

 

Tinha um zelo dedicado à minha simplória personagem sem máscaras. Ensinou-a a soprar os primeiros “ais”. Foi muleta quando era necessário equilibrar a carne no trapézio, e é corpo quando sustenta nos braços finos o peso de cinco arrobas. Foi mestra quando a palma da sua mão engolia o dorso da minha e guiava o preenchimento caligráfico do couro escolar. Foi e é algodão quando os lábios tocam a fotografia sustentada na parede. E é falível quando diz que a saudade corrói lentamente a esperança, mas nem por isso deixará de vibrar o êxtase do encontro que vivo em desatada sangria.

 

Minha diretora ensina-me que um mais um são dois. E que dois são trilhões de possibilidades algorítmicas, que extrapolam o quadro aritmético e assentam a poeira do surto na comunhão dos olhos e dos oceanos que encerramos em nós.

 

Assim, temperando o meu caderno com tinta e dádiva, a diretora também me ensinou, ensina e ensinará sempre, a temperar o lúdico do inesperado com a lógica do cartesianismo no jogo das cartas. Sigo construindo os meus seguidos e já conto com uma jangada real de paus na mesa. Foi com essa canastra que encontrei o meu casebre realista de grandes novidades e o meu imenso castelo de futilidades!

 

Ítalo de Melo Ramalho

10.IV.2017

Crônica

2 de junho de 2017

SAUDADE e ESPERANÇA

 

Na minha casa tem um ipê. Árvore frondosa, cheia de vida, de sangue e de seiva. É um ipê atípico: vive florido no mais inóspito dos chãos e, mesmo assim, perpassa o mundo continental como a agulha que fura a derme do algodão mansamente; seus galhos se estendem, abraçando toda a terra entre a superfície e a atmosfera, sem hesitar entre a ordem, o fator e o resultado; sua copa é tão alta que o céu, em reverência e entorpecido, beija a testa da sua exuberância de maneira que eu confundo o azul celeste com o azul divino nas perspectivas horizontal e vertical do olho no oco profundo das linhas geométricas do ser e do nada.

 

Fico ali: mudo, arrebatado, absorto… sem saber se o céu é parte separada do todo, ou se o meu ipê atinge medidas que o danado não passa de uma trama divina e, portanto, literária, com o fim de tornar possível a sua existência. Pois, para ornar o azul do meu castelo, só a crença em Deus, chancelando o demasiadamente humano.

 

Faz algum tempo que tenho de cor uma sextilha atribuída ao titânico Pinto do Monteiro (Monteiro é um reino do cariri paraibano), cantador e rapsodo de quengo rápido como coice de preá, e de língua mais afiada que bisturi de madeira de lei. Aquele que corta a carne e empacota a alma! Pinto, ao definir o sentimento semântico da palavra verdade, diz, em um dado instante (nos dois últimos versos), que a “a saudade só é saudade/ quando perde a esperança!”. Que beleza de imagem! Recordei de um programa de televisão sobre poesia da TV Senac chamado “Literatura”.

 

Naquela ocasião, o programa foi especialmente dedicado a essas duas regiões vizinhas: o cariri paraibano e o pajeú pernambucano. E já que estamos nos debruçando por essas selvas, para uns, e jardins, para outros, da abstração e concretização da imagem poética, venho trazer a vocês que me leem, a resposta que um rapaz de 12 anos, residente, no tempo da reportagem, na cidade de São José do Egito – “terra de quem não é doido é poeta!” – no estado de Pernambuco (e que por acaso é limite com a já histórica Monteiro, localizada no emblemático estado da Paraíba, minha mãe espacial), respondeu ao repórter fuzilando-o com uma resposta límpida e sem pólvora. Apenas com a dureza do mármore sertanejo. Pergunta o inquisidor: “Pra você, o que é poesia?”. Responde o certeiro Davi: “É o sublime!”. Aquilo continua sendo o suficiente para mim. Para minha indomável sede de encontrar a paleta com a qual Deus pintou e bordou a vida.

 

Por isso eu me entendo e me desentendo com a verdade do poeta. Entendo o sentido e o estalo mágico da criação poética. Mesmo sem ser de longe um mediano artesão da palavra. Mas reconheço o encanto e o desanuviamento que as/os musas/os  provocam na gema dos/as fabulosos/as poetas. E me desentendo, no sentido de não concordar com o menestrel (porém, o compreendendo perfeitamente), pois não é apenas a ausência do amor que nos lembrará do ser amado. Como também não é somente a saudade que moverá a esperança.

 

Eu e meu ipê, frondosamente azul, estamos mergulhados na desconhecida estância da saudade. As nossas saudades não são do tempo nos quais se inventam e se inventavam cores para as árvores. São do tempo em que inventaríamos ipês para coser um coração etéreo em um espírito de carne.

Ítalo de Melo Ramalho

22.III.2017