Archive for the ‘Sem categoria’ category

Para Chris

13 de junho de 2018

Para Christina Bielinski Ramalho Lula da Silva

Aí o sujeito tá deitado na cama, com o computador apoiado no projeto barriga para a vida eterna (antes o projeto era abdome beliscão em azulejo), escutando e assistindo discos (imagem e som) produzidos pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), intercalando com a pesquisa para o mestrado que até agora não encontrou uma única pedra para lapidar nesse mar de ouro transcibernético da internet. Quando de repente a criatura mais amada do mundo interrompe o escuro da compenetração e diz: “não vai escrever nadinha não?”. A feição do rosto dela vocês já podem imaginar! Ah Galega danada! Hoje é o dia 12 de junho, dia dos namorados, dia do amor. E agora, meu Deus? Eu sou ruim com as palavras. Não sei fazer declarações. E agora? Ela vai ficar chateada! Sem contar que fico aperreado, querendo fazer mil coisas que não domino ou desconheço e que quando tomo sentido do que é os caminhos se abrem em múltiplas bifurcações.

Hoje começamos o dia bem juntinhos. Os beijinhos ao acordar. Depois ela fica deitada observando o noticiário e quando alguma notícia chama a sua atenção, ela comenta alguma coisa. Fica escandalizada com a opção política de alguns manifantoches… e assim segue. Eu desço, preparo o café, mas antes: recolho as informações da noite passada dos nosso bichinhos. Logo em seguida, depois da ceia matinal, fomos ao apartamento dos meus sogros, pois eu fui contemplado com um terreno na terra dos pés juntos: presente da sogra. Depois, uma passada para saber local da estadia de uma amiga portuguesa dela que virá para Aracaju no segundo semestre com a família. Ida ao MST; loja de molduras; manicure para um trato nas mãos – aqui anoto para os/as que lêem esta crônica o que Toquinho confessou sobre o que Vinícius vaticinava: os homens precisam opinar sobre a cor do esmalte das mulheres. Eu não o fiz e ela acertou de rombo!

Finalmente chegamos em casa e preparei uma carne de sol com cuscuz para só então, de apetite estancado, levar uma SURRA no buraco. Fiquei torto com a cipozada nas mágicas cartas do baralho. Em seguida assistimos ao documentário sobre Rui Mauro Marini: um intelectual brasileiro dos tempos em que o intelectual também se fazia fora do gabinete; um intelectual orgânico. Terminado o filme, nos separamos. Ficamos numa distância de mais de dois e menos de cinco metros. Ô solidão!

Até aquele instante tudo transcorria normalmente. Até brincamos com uma amiga a respeito da troca de presentes no dia dos namorados. Para nós a data seria um dia semelhante aos demais. Mas por que aquela cobrança já no finalzinho do espetáculo? Aí entendi que ela como excelente Poeta/Professora que é e que tem uma íntima relação com a palavra, não poderia pedir uma outra coisa que não fosse um recadinho textual. Como vocês já perceberam, eu escrevi isso tudo para dizer que não sei escrever o que não foi preso por palavra alguma. Não tenho capacidade abstrata para tecer fios poéticos além dos visíveis. Antes eu acreditava que a literatura era a maior das artes. Hoje, acredito que ela divide com a música esse pódio. Então, Galega, escolhi essa canção para você. Te Amo, peste!

Observação: a cor do esmalte é vermelho!

Ítalo de Melo Ramalho

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Crônica

13 de fevereiro de 2018

Já ouvi falar que os/as ditadores/as detestam a graça do humor. Provavelmente é porque toda ordem é subvertida após a “cambalhota e o riso” do palhaço, expondo o rídiculo do autoritarismo instituído.

Pois bem, a escola de samba PT do Rio de Janeiro – o jornalista Paulo Henrique Amorim observou com a acuidade e a perspicácia que a profissão exige, que a agremiação do Tuiuti quando reduzida a identificação por sigla, tem as mesmas letras que as do Partido dos Trabalhadores – conseguiu expor ao rídiculo todos/as PANELEIROS/AS e, principalmente, a Rede Globo de televisão, patrocinadora do GOLPE parlamentar e midiático, chancelado pela covardia judicial do STF, que redundou nesta ditadura togada que carcome garantias fundamentais asseguradas na Constituição de 1988. A escola, após horas, anos de massacre midiático, conseguiu na mesma tela GOLPISTA realizar o momento da sublimação catártica. Mesmo que por pequenos longuíssimos 10 minutos, as imagens reproduzidas foram tão impactantes que a carapuça do silêncio imperou quando da passagem das últimas alas e do último carro. Vampirão, manifestoches (adorei o nome!), carteiras de trabalho, tucanos enjaulados numa utopia desmedida, fizeram da loquacidade dos apresentadores uma sinfonia para surdos.

Sei que a última ala representou uma pequena parte do contexto histórico contemporâneo. Pequena, porém, relevantíssima parte. Mas como não ficar abastecido com esse polimento dado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti (PT) e realizado, CORAJOSAMENTE, por seu carnavalesco Jack Vasconcelos nos nossos corações e nossas mentes? A luta principal no Brasil é pelo reparo histórico no que se refere ao período secular do escravagismo em terras tupiniquins. Se você conseguiu se emocionar com os “10 minutos” de morte sonora da casa grande, seja bem vindo/a à luta contra os/as que uniformizam sonhos e vilipendia direitos.

Ítalo de Melo Ramalho
13.II.2018

 

Evangelho epistolar das horas

22 de novembro de 2017

As cosmologias nascem e com elas nascem também as foices do tempo. Lâminas de fina espessura e gume afiado. Lima, que ao mais rápido cochilo do gérmen, desce seu aço frio de fio cirúrgico e cortante, escorregando milimetricamente sob o rudimentar broto como no secular fazer da colheita. Também não escapam ao fio certeiro os escondidos rizomas. Nesse caso, a intervenção cirúrgica de Cronos estabelece, assim, que as sentenças serão cumpridas sem efeitos suspensivos e devolutivos, como também graus duplos de jurisdição ou qualquer artimanha jurídica. Ele só permite os segundos com engenho e graça!

– Quem é você? Pergunta o homem

– Que indagação mais “clássica”, seu insolente!

– Insolente?

– Sim! Eu sou a máquina que come tudo!

– Come tudo?

– Claro! Sem deixar pedra por cima, pedra por baixo! Minha navalha capina tudo!

– Nossa! Que apetite miserável!

– Na assembleia helênica me aprisionaram com o nome de Cronos. Mas em verdade vos digo que sou Deus, o irremediável! O que escande as sílabas da existência.

– Você, Cronos, que mutila a parede com fendas em baixo relevo e que ganha da massa e do sopro, do pó e do cálcio? Você é o faminto e implacável que por tropeços sagrados e profanos imola em escala biográfica do neófito ao necrosado? Você é quem senta o fermento na massa e depois sai devorando as partículas de instantes já pretérito mais que pão imperfeito? Você é o senhor das possíveis gotas futuras de vida, e que por serem possíveis é que são improváveis como realidade porque dependemos do seu humor como da sua desatenção para alcançar o mínimo de esperança? Você é quem vence em tudo?… Digo: quase tudo? Saiba que escapa às suas unhas o líquido espesso e tinto da poesia e das palavras-vísceras advindas das imagens venais captadas das suas entranhas, dos seus miolos e dos meus abismos. A você, máquina inquisidora, esculpirei o traço fracionado da minha aquarela monocromática e, com tinta única, deixarei estampados meus finitos três quartos do século para nunca mais ouví-lo.

Trecho do “Evangelho epistolar das horas”

Ítalo de Melo Ramalho

Poema

14 de agosto de 2017

Tempo biográfico

 

No abismo: uma flor!

Parece solta: dispersa.

Apenas com sua pétala.

Asa.

Tecido.

Conjunto da carne

que preenche o limite

vegetal do broto-mundo.

 

No abismo: uma flor!

Parece dançar: filosofia.

Autóctone, rega o osso

da costela.

Novena das graças

natimorto que foi.

 

No abismo: uma flor!

Parece esguia: plena.

Sobre o plano: arde vilipêndios

ao bafo venal das horas.

Corpo vesgo

que transcende à fúria

narcísica

e estanca o evangelho

líquido do cálice.

 

No abismo: uma flor!

Parece curva: elástica.

Signo da resiliência

do filamento.

Fio orgânico

condutor da seiva têxtil;

mineral do silêncio.

 

No abismo: uma flor jaz!

Presa ao estrume telúrico.

Sudário da matéria

anódina que é.

Chumbo da raiz

ancestral do gérmen.

Febra crônica

da vaidade

teatral do olho.

 

Ítalo de Melo Ramalho

14.VIII.2017

Crônica

18 de junho de 2017

CRÔNICA: O Amor me sequestrou!

 

O Amor me sequestrou há exatos onze anos!

Foi no mural localizado no Centro de Ciências, História, Letras e Artes, bem pertinho da casa da xerox e da zona de informação que socorre os/as desavisados/as que por ali passeiam; de frente para os degraus que levam os/as transeuntes ao segundo piso do famoso CCHLA (Chinchila! Que pronúncia saborosíssima!) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, que o sequestro relâmpago se deu por inteiro encantamento. Foi um fogo tão abrasador que acendeu desde o primeiro olhar no olho da fera, e que perdurou por quase infinitos (graças a Deus!) longos dez anos e que perdurará ao largo dos infortunados pontos finais.

Particularmente, vejo o Amor como a montagem de uma fogueira para, só depois, sentir-se a ardência do fruto que nela é guardado. Primeiro, viaja-se por dentro da flora bela e hostil, e recolhe-se o tronco mais grosso e lenhoso, para sedimentar, no altar, o alicerce das chamas. A madeira tem que ser pesada; de lei; de eros e psiquê! Que a árvore escolhida faça o fio do machado verter água da lâmina “assassina” e que, depois de feita essa ruptura de mundos, o utensílio do corte transforme-se em pena e siga a sina do sósia do Cosme Velho. Sempre vertendo o mel fino a cada esquina transposta em números de rodapé.

Terminada essa fase. Esses primeiros passos. Segue-se para a ornamentação da estrada a ser pavimentada e ocupada pela minúscula fagulha do grão. Vocês devem saber que as montagens dos fogaréus guardam maturações e inúmeros formatos. Quanto à sazonalidade, opto pelo impulso de um “boa noite!”; já quanto à disposição arquitetônica, prefiro a triangular! (Apenas questão de gosto! Fica parecendo com castelos descansando no alto das serras.) Fechando os parênteses, voltemos ao texto. Assim, na hora de erguer a catedral de pau, faço a cama com troncos maiores e mais substanciais e só depois repouso os menores e mais formais em circunferência material por sobre o monte. Feito isso, junto à base da estrutura os gravetos secos e de boa condução das labaredas. Esses arbustos tem o mesmo papel dos anjos na cosmologia cristã!

As fogueiras são exatamente como as gentes: depois da fertilização e, consequentemente, da germinação, seguidas de podas quotidianas da vida, surge, no veio calejado pelas intempéries da harmoniosa junção Vida e Arte, o fogo da carne. E este encontra-se pronto para a combustão do torrencial fogo de pentecostes, que não é outro senão o fogo do músculo somado ao do espírito, incendiando o concreto e o abstrato ao mesmo instante. Essa luz que se põe fulgurante para uns; serena e cinza para outros; mas que é improvável não imaginar a sua existência: é o fogo da sabedoria! A existência é aquela que move e sequestra os seres humanos de forma total e não em lapsos repentinos de claridade. Esse fogo é sinônimo do fogo da eternidade. O que é para sempre porque é princípio entre os sublimes.

Hoje, sou um livre refém desse cárcere que me liberta das inconclusas liberdades antes vividas, e que me aparece tão intensamente, que a pupila do meu olho não dilata ao encará-la face a face, porque sabe que o que treme ali, não é um singelo fogo de palha, e sim, um fogo que toma as taças e as queima pelo sangue sacrificado dos homens.

Te amo, minha tocha ouro-azul!

Ítalo de Melo Ramalho. 12.vi.2017

Crônica

11 de junho de 2017

Ópera renascentista

 

Conversando em casa sobre ópera e os seus entornos, contornos e retornos artísticos, logo depois de termos assistido a uma no Teatro Atheneu aqui em Aracaju, e eu ter ficado assaz impactado (sou um iniciado nessa mais que nova diletância!) com todos os trechos apresentados dos mais belos espetáculos operísticos do mundo, afirmo – convencido como uma seta no miolo do alvo -, ser a ópera fruto do gênio renascentista: como sabemos e a historiografia dos tempos nos apresenta, o renascimento singulariza uma volta ao brilho helênico nos quesitos forma e substância. Os candeeiros acendiam e ascendiam às trevas, e os pontos-cruz bordariam, no manto escuro da membrana celeste, estrelas multicoloridas determinando o término do apocalipse e a inauguração do solo moderno e alvissareiro das luzes.

Depois da verbalização “teórica-científica”, aguardo a sentença já livre da toga parda-escura que revestia o meu trapézio, e cobri-me com absoluta certeza de que daquele ovo sairia um pinto ou uma omelete, mas que minha glória de sabedor das coisas seria, finalmente, reconhecida e aclamada.

LEDO ENGANO!

Você, elemento sinantrópico que me lê, sabe aquela risadinha que surge no canto da boca como prelúdio de uma galhofa? De uma algazarra? Pois é! O riso explodiu e os fatídicos cogumelos em face japonesa eram mínimas frações nucleares perto do que vivia naquele instante. O sonoro gás do escárnio não quebrava apenas as moléculas atômicas das minhas convicções acadêmicas: também rasgavam e trituravam as células da minha fantasia de busca intelectual! E a matéria do que já tinha sido entrou para o universo paralelo da pós-verdade. Do pseudo.

Ao entregar essa crônica para minha revisora, ela, entre o exercício da docência e o riso benevolente de quem sabe das coisas, disse: “Que drama, Moreno! Não exagere nesse tema! A ópera talvez seja a manifestação artística mais completa até hoje criada pelo ser humano. Nela podemos encontrar elementos criativos para além da música; como o teatro, a literatura, as artes visuais e tantos outros. O que é relevante não é o período germinal da espécie artística! Isso é o de menor valia. O que é medular para a humanidade é o legado cantado pelos que vieram antes e que deixou indeléveis marcas nas nossas vidas. Vem! Que besteira é essa? Vamos pra rua! É hora de combatermos o golpe e os golpistas! Isso é que é deveras relevante nesse instante! Depois veremos essas outras questões!” E saiu, mais convencida do que nunca, que a hora é agora de gritarmos: DIRETAS JÁ!

Eu, que não sou besta nem nada, agarrei-me na cintura da danada e saímos pelas ruas do centro da capital sergipana, ofertando ao público das ruas, das janelas, portas e outras marquises, o nosso mais forte grito pedindo eleições diretas. O espetáculo farsesco que é apresentado ao povo brasileiro não é senão uma ópera bufa, verossímil das oficialidades que ocupam as instituições da república nacional. É improvável olhar para esse establishment e intuir qualquer avaliação estética e muito menos ética. DIRETAS JÁ, esse é o nosso refrão!

Trapézio

2 de junho de 2017

Trapézio

Crê o trapézio
sustentar o trapezista
e a corda que abraça as
perpendiculares,
amalgama de
lenha e lã
continente gravítico
do músculo circense.

Vê o trapézio
o corpo minúsculo da célula
escrever passos na moldura
geométrica da experiência
mambembe.

Sabe o trapézio
que a massa desenha alfabetos
na atmosfera do picadeiro
e imprime no bronze
o politeísmo dúbio
da teometria torta
do medo.

Cala o trapézio
quando a costura monociclista
do moinho
pedala no equilíbrio
do pesponto
emendando a flor esférica
ao vazio do abismo.

Finda o ginasta
a hipnose elástica do exílio
quando a segunda potência
desperta o silêncio
ao som afinado de
boa noite!

Ítalo de Melo Ramalho
1.V.2017