Crônica

Publicado 2 de junho de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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CRÔNICA: A tinta, o caderno e a dádiva

 

Para d. Terezinha Alves de Melo Ramalho

 

Ao nascer, Deus perguntou-me: “O que queres?”. Sem pestanejar, respondi: “O chão!”. Ele sorriu maliciosamente como um jogador de baralho em blefe, e percebeu que eu era igual às outras sementes: sempre à espera da canastra real. Sendo assim, retalhou e me entregou um pedaço raso de couro de carneiro medindo 19,04 por 19,74 centímetros, e disse: “Taí o seu caderno! Borde letras com fios do próprio sangue, derramando-o na geografia áspera da celulose!”.

 

Uma sensação estranha ferveu nas minhas vísceras. Fiquei atônito com aquela possível liberdade de desfiar o meu rosário de penas no infinito mundo mágico do cartear. Ora! Que liberdade seria essa se ao menos não posso querer permanecer ou, sendo mais astuto, prolongar a permanência até desaparecer no espaço como uma nuvem silenciosa que trafega para o abismo do éter? Ou será que eu poderia escolher sumir de maneira abrupta como o concreto que evapora das mãos ilusionistas do crupiê? Definitivamente estava no cárcere perpétuo das dúvidas!

 

Não havia o que fazer! Peguei o meu caderno e saí aos pinotes pelo labirinto das hostilidades. Saltando pedra em pedra! Escalando serra a serra! Submergindo vala a vala! As cortinas que se abriram e se abrem são as mesmas que se fecharam e se fecham. Os teatros e as suas encenações existem aos montes e sempre existirão! E eu mesmo ainda não tinha me dado conta de que o meu palco já se iluminara há tempos. Hoje, às vésperas dos quarenta e três anos, vejo fachada, nave e cúpula precisando de cuidados clínicos.

 

É, o tempo caminha parelho com as formas e, principalmente, com as substâncias. E falando dessa última em específico, lembro da magistral diretora que soube conduzir o elenco uno do meu mundo, com instantes de doce de leite e vestes de cambraia bordada; e outros com cenas de sola de couro e borracha da amazônia.

 

Tinha um zelo dedicado à minha simplória personagem sem máscaras. Ensinou-a a soprar os primeiros “ais”. Foi muleta quando era necessário equilibrar a carne no trapézio, e é corpo quando sustenta nos braços finos o peso de cinco arrobas. Foi mestra quando a palma da sua mão engolia o dorso da minha e guiava o preenchimento caligráfico do couro escolar. Foi e é algodão quando os lábios tocam a fotografia sustentada na parede. E é falível quando diz que a saudade corrói lentamente a esperança, mas nem por isso deixará de vibrar o êxtase do encontro que vivo em desatada sangria.

 

Minha diretora ensina-me que um mais um são dois. E que dois são trilhões de possibilidades algorítmicas, que extrapolam o quadro aritmético e assentam a poeira do surto na comunhão dos olhos e dos oceanos que encerramos em nós.

 

Assim, temperando o meu caderno com tinta e dádiva, a diretora também me ensinou, ensina e ensinará sempre, a temperar o lúdico do inesperado com a lógica do cartesianismo no jogo das cartas. Sigo construindo os meus seguidos e já conto com uma jangada real de paus na mesa. Foi com essa canastra que encontrei o meu casebre realista de grandes novidades e o meu imenso castelo de futilidades!

 

Ítalo de Melo Ramalho

10.IV.2017

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Crônica

Publicado 2 de junho de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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SAUDADE e ESPERANÇA

 

Na minha casa tem um ipê. Árvore frondosa, cheia de vida, de sangue e de seiva. É um ipê atípico: vive florido no mais inóspito dos chãos e, mesmo assim, perpassa o mundo continental como a agulha que fura a derme do algodão mansamente; seus galhos se estendem, abraçando toda a terra entre a superfície e a atmosfera, sem hesitar entre a ordem, o fator e o resultado; sua copa é tão alta que o céu, em reverência e entorpecido, beija a testa da sua exuberância de maneira que eu confundo o azul celeste com o azul divino nas perspectivas horizontal e vertical do olho no oco profundo das linhas geométricas do ser e do nada.

 

Fico ali: mudo, arrebatado, absorto… sem saber se o céu é parte separada do todo, ou se o meu ipê atinge medidas que o danado não passa de uma trama divina e, portanto, literária, com o fim de tornar possível a sua existência. Pois, para ornar o azul do meu castelo, só a crença em Deus, chancelando o demasiadamente humano.

 

Faz algum tempo que tenho de cor uma sextilha atribuída ao titânico Pinto do Monteiro (Monteiro é um reino do cariri paraibano), cantador e rapsodo de quengo rápido como coice de preá, e de língua mais afiada que bisturi de madeira de lei. Aquele que corta a carne e empacota a alma! Pinto, ao definir o sentimento semântico da palavra verdade, diz, em um dado instante (nos dois últimos versos), que a “a saudade só é saudade/ quando perde a esperança!”. Que beleza de imagem! Recordei de um programa de televisão sobre poesia da TV Senac chamado “Literatura”.

 

Naquela ocasião, o programa foi especialmente dedicado a essas duas regiões vizinhas: o cariri paraibano e o pajeú pernambucano. E já que estamos nos debruçando por essas selvas, para uns, e jardins, para outros, da abstração e concretização da imagem poética, venho trazer a vocês que me leem, a resposta que um rapaz de 12 anos, residente, no tempo da reportagem, na cidade de São José do Egito – “terra de quem não é doido é poeta!” – no estado de Pernambuco (e que por acaso é limite com a já histórica Monteiro, localizada no emblemático estado da Paraíba, minha mãe espacial), respondeu ao repórter fuzilando-o com uma resposta límpida e sem pólvora. Apenas com a dureza do mármore sertanejo. Pergunta o inquisidor: “Pra você, o que é poesia?”. Responde o certeiro Davi: “É o sublime!”. Aquilo continua sendo o suficiente para mim. Para minha indomável sede de encontrar a paleta com a qual Deus pintou e bordou a vida.

 

Por isso eu me entendo e me desentendo com a verdade do poeta. Entendo o sentido e o estalo mágico da criação poética. Mesmo sem ser de longe um mediano artesão da palavra. Mas reconheço o encanto e o desanuviamento que as/os musas/os  provocam na gema dos/as fabulosos/as poetas. E me desentendo, no sentido de não concordar com o menestrel (porém, o compreendendo perfeitamente), pois não é apenas a ausência do amor que nos lembrará do ser amado. Como também não é somente a saudade que moverá a esperança.

 

Eu e meu ipê, frondosamente azul, estamos mergulhados na desconhecida estância da saudade. As nossas saudades não são do tempo nos quais se inventam e se inventavam cores para as árvores. São do tempo em que inventaríamos ipês para coser um coração etéreo em um espírito de carne.

Ítalo de Melo Ramalho

22.III.2017

Ipê azul

Publicado 24 de março de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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SAUDADE e ESPERANÇA

 

Na minha casa tem um ipê. Árvore frondosa, cheia de vida, de sangue e de seiva. É um ipê atípico: vive florido no mais inóspito dos chãos e, mesmo assim, perpassa o mundo continental como a agulha que fura a derme do algodão mansamente; seus galhos se estendem, abraçando toda a terra entre a superfície e a atmosfera, sem hesitar entre a ordem, o fator e o resultado; sua copa é tão alta que o céu, em reverência e entorpecido, beija a testa da sua exuberância de maneira que eu confundo o azul celeste com o azul divino nas perspectivas horizontal e vertical do olho no oco profundo das linhas geométricas do ser e do nada.

 

Fico ali: mudo, arrebatado, absorto… sem saber se o céu é parte separada do todo, ou se o meu ipê atinge medidas que o danado não passa de uma trama divina e, portanto, literária, com o fim de tornar possível a sua existência. Pois, para ornar o azul do meu castelo, só a crença em Deus, chancelando o demasiadamente humano.

 

Faz algum tempo que tenho de cor uma sextilha atribuída ao titânico Pinto do Monteiro (Monteiro é um reino do cariri paraibano), cantador e rapsodo de quengo rápido como coice de preá, e de língua mais afiada que bisturi de madeira de lei. Aquele que corta a carne e empacota a alma! Pinto, ao definir o sentimento semântico da palavra verdade, diz, em um dado instante (nos dois últimos versos), que a “a saudade só é saudade/ quando perde a esperança!”. Que beleza de imagem! Recordei de um programa de televisão sobre poesia da TV Senac chamado “Literatura”.

 

Naquela ocasião, o programa foi especialmente dedicado a essas duas regiões vizinhas: o cariri paraibano e o pajeú pernambucano. E já que estamos nos debruçando por essas selvas, para uns, e jardins, para outros, da abstração e concretização da imagem poética, venho trazer a vocês que me leem, a resposta que um rapaz de 12 anos, residente, no tempo da reportagem, na cidade de São José do Egito – “terra de quem não é doido é poeta!” – no estado de Pernambuco (e que por acaso é limite com a já histórica Monteiro, localizada no emblemático estado da Paraíba, minha mãe espacial), respondeu ao repórter fuzilando-o com uma resposta límpida e sem pólvora. Apenas com a dureza do mármore sertanejo. Pergunta o inquisidor: “Pra você, o que é poesia?”. Responde o certeiro Davi: “É o sublime!”. Aquilo continua sendo o suficiente para mim. Para minha indomável sede de encontrar a paleta com a qual Deus pintou e bordou a vida.

 

Por isso eu me entendo e me desentendo com a verdade do poeta. Entendo o sentido e o estalo mágico da criação poética. Mesmo sem ser de longe um mediano artesão da palavra. Mas reconheço o encanto e o desanuviamento que as/os musas/os  provocam na gema dos/as fabulosos/as poetas. E me desentendo, no sentido de não concordar com o menestrel (porém, o compreendendo perfeitamente), pois não é apenas a ausência do amor que nos lembrará do ser amado. Como também não é somente a saudade que moverá a esperança.

 

Eu e meu ipê, frondosamente azul, estamos mergulhados na desconhecida estância da saudade. As nossas saudades não são do tempo nos quais se inventam e se inventavam cores para as árvores. São do tempo em que inventaríamos ipês para coser um coração etéreo em um espírito de carne.

Ítalo de Melo Ramalho

22.III.2017

Poética

Publicado 24 de março de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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POÉTICA

 

I.Dança

 

Monto e desmonto

cavalo, cadeira,

igreja e castelo.

Fonemas, morfemas,

uníssonos

retalhos

policromáticos.

 

Vítimas?

Os grafemas mudos!

 

II.Contra-dança

 

Quotidianamente

a tortura do papel

preenchido de riscos

sem forma

sem linha

sem gema.

 

O sacrifício ortográfico é letal.

Veste de carne a derme da celulose.

Sangria verbal

confluindo nos rios do Lácio

a gota que irrompe da mão.

 

III. Pós-dança

 

A catarse se dá ao extrair o bem inexistente.

 

Iconograficamente monto e desmonto.

Não edifícios gráficos,

sonoros,

soberbos,

grandiloquentes.

 

E sim, casas de taipa!

 

Ítalo de Melo Ramalho

23.III.2017

 

 

A sabedoria e suas alcovas

Publicado 23 de março de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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CRÔNICA A sabedoria e suas alcovas

Aqui, da minha alcova, do meu cubículo, vejo, revejo e acompanho, atentamente, o girador do mundo e suas nuances. E por onde, indago aos meus mais fiéis leitores (rsrs… mote de jornalista!), essa roda, esse mundo, vaga solta nessa multicolorida imensidão? Por onde galoparemos livres de cabrestos? Quando navegaremos as asas nas carnes dos intermináveis oceanos?… Não é fácil e tampouco se encerra em sins ou em nãos qualquer resposta sensata e plausível. Ao entendermos que o raio circunferencial do próprio umbigo absorve taciturnos cantos e encantos, e que sua gênese escapole dos frágeis sentimentos do egocentrismo e suas frugalidades, aportaremos, em definitivo, nos profundos hemisférios da transmutação espiritual. Para os quais migraremos em espaçosas vias sob a égide do altruísmo, dependendo apenas das inclinações morais e éticas. O mundo tragará a nossa matéria-alma como uma boa cachaça!

Lendo essa breve introdução para uma comovida interlocutora, e a dita cuja, a sinhazinha, após escutar – atenta – e abrir um sorriso enigmático e brevemente esperançoso, confesso ter pensando no êxito do meu propósito de “cientista sério”. Não custou tempo e a risonha Dama emergiu desse inconcluso sonho, deferindo esta máxima axiológica: “VOLTE À REALIDADE, meu filho! Você não percebe que o que você escreveu foge da realidade? Do quotidiano dessa gente que você diz tanto prezar? Homi, deixe de falar difícil! O mundo é comum nas suas relações diárias. Não encurte a sua vida no campo do saber acadêmico. Amplie o seu conceito de cientista sério (com leve ironia!) e dance ao som das ruas!”. Pronto! Vocês sabem quando o badalo rompe o silêncio do sino? Foi assim que o oco do meu quengo foi rompido. Que cipoada da gota! A lacônica e doce leonina rugiu em um sonoro e ensurdecedor bramido, o silente açoite que rasgou o lombo da minha prolixa e intempestiva aura criativa, imagética, poética, metafórica… Danou-se! Nunca! Jamais tinha presenciado uma sentença tão categórica e com desmedido asco às minhas confusões pseudo-intelectuais. O meu esboço de tratadista das ciências obscuras e ocultas aos linces do quotidiano, não lavou e muito menos lavará a calha por onde corre e correrá o mineral com destino às cisternas do saber. Hoje, a calha é residência solar e lunar dos felinos. Lugar onde os bichanos dormem e depositam os restinhos de ontem.

Apenas me restou concordar: “É isso mesmo, querida Leoa! A senhora está certíssima!”. Esculpir imagens concretas sem o rudimentar barulho vindo das praças é algo que a verborragia vaidosa e soberba dos campos do saber oficial jamais entenderá. Ter em mãos o ouro lapidado e burilado é mais cômodo do que enxergar, diretamente, beleza na pepita suja, enlameada e opaca, para, só então, gravar no espinhaço do texto a história do silencioso protesto popular. Aliás, beleza é um conceito que acompanha de perto os movimentos da sociedade em seu constante pulsar. Se ficarmos atentos às manifestações artísticas, veremos que o homem do povo, em sua perspectiva de eterno brincante, indica caminhos de apurada sofisticação. Por exemplo: a manta multicolorida que veste os caboclos-de-lança do maracatu. Se os/as costureiros/as e criadores da moda desviassem o olhar em direção à zona da mata pernambucana, poderiam encontrar matéria-prima para suas artesanias de criação. E assim segue por todas as variações artísticas e da existência humana. No meu caso, seguirei pelo labirinto que a sábia felina apontou. Caminharei cego, sem o fio de Ariadne, com o propósito de me perder, pois, dessa maneira, é que a minha Rainha e patrona do meu caminhar, Santa Sofia, me aguarda em seu trono de luzes, trevas e verbos.

Portanto, (in)escrupulosos e gentis Cavaleiros e Damas, o paralelo a ser traçado é localizado entre o real e a realidade. Basta sabermos que a linha, o eixo do real é o dado e pugnarmos pelo que é construído de maneira democrática, lúcida e com honestidade intelectual. É mister zelarmos uns pelos outros, como deve ser e como seria essencial que fosse. Termos interesse pela sanidade individual e coletiva da memória é mais que conveniente para polir a alma sem oscilações e tergiversações. Porém, se estes desenganos macularem os nossos vieses quebrando o cristal dos sonhos, recolhamos o que seja: os cacos e a menor partícula da pedra. Quando percebermos estaremos a dançar com o Mestre Francisco, o de Assis, sem esquecer o Contra-Mestre Zaratrusta, o germânico. As idiossincrasias adormecerão e a plenitude do real se forjará na realidade, fazendo um todo incompleto e necessário.

Quanto à sabedoria e à simplicidade da linguagem reclamada pela angorá selvagem, buscarei encontrá-la em cada esquina literária; em cada dedo de prosa; em cada balcão poético. Por onde trafegar o meu estreito e raso riachinho, estarei cuidando e preservando o rasteiro mato ciliar que o protege do assoreamento da vaidade humana.

Ítalo de Melo Ramalho

15.III.2017

 

Crônica

Publicado 8 de março de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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CRÔNICA: Mentir por amor à arte

 

Sábado, quatro de março do ano de dois mil e dezessete. Um dia comum como qualquer pauta de diário/semanário político, a não ser pela saudosa lembrança da minha encantadora Vovó Maria que teria feito 101 outonos no dia 3.

Sábado: quatro de março. Aracaju, Sergipe. Estou folheando, numa desarmoniosa dança festiva, bela e lúdica, alguns alfarrábios. Tenho em mãos pares de livros com palhas e cabelos diferentes, semelhantes ao milho verde, assado no braseiro cinza e pálido do carvão. Assim, debulho, página a página, com a ânsia da fome nas palmas das mãos, e remeto à boca o cereal, mastigando-o impiedoso num transe osmótico entre o que é e o que passará a ser.

Sábado, 4 de março de 2017, 8h02min. Uma flauta doce atravessou, vertiginosamente, a orquestra num rasgo de romper os mais duros tímpanos de cimento: “…trinta ovos grandes e vermelhos por dez reais!…”. Foi o que ainda consegui escutar! Fiquei puto ao passo que também em contentamento entrei! Pois era sábado e iria à feira popular com a Galega. E fomos!

Nas feiras livres de rua, se veem barões e damas sem capas e sem espadas e com o colorido real do nosso povo. Aquela história de encontrar as três matrizes que fundiram, marcaram, perpetuaram e perpetuam o mosaico brasileiro mencionado por teses e estudos: É verdade! Aqui, feirante e freguês, frutas e hortaliças, legumes e carnes, atravessam a rápida manhã entre negociatas, reclamações, risos e um “fica com Deus”, ou a sua variante ótica “vai com Deus”, com a sensação de que ambos estão felizes com o fim do “escambo” monetário.

Sigo feliz e saltitante com ela. Desbravando ruas e vielas da velha Atalaia. Quando, incomodada com o meu lamber de lábios, ela me interpela: “Amor, você não vai comprar uma cervejinha?”. Fiquei assustado, mas não me fiz de rogado e respondi de pronto: “Vou sim, meu Amor! Tem um depósito de bebidas bem pertinho da nossa casa que já vende geladinha. No ponto!”. Nós iríamos ao churrasco natalício de Márcia, querida madrinha e, portanto, querida amiga, e achamos melhor comprar algumas latinhas para garantir o meu banho hepático semanal. Foi quando se deu o inesperado no bem-fadado depósito!

“Bom dia!”, cumprimento a senhora mecanicamente. “Bom dia!”, respondeu a minha interlocutora. “A senhora pode me informar o valor da Brahma? A Skol é vinte e três reais, já vi!”. Ela: “Essa Brahma aí é vinte nove reais! É sem álcool! Num tem graça não! Agora a que deixa o povo todo sorrindo de nuca a nuca é essa vermelha. Ela deve ter uns pedacinhos de cachaça na lata. Bem geladinha é boa demais! O senhor gosta?”.  Naquele momento a minha vontade era saber o valor, pagar e voltar pra casa, porém, essa beleza de pessoa me conquistou. Então me disse o valor do pacote com uma dúzia e continuou proseando: “O senhor não é daqui não? Tem um sotaque bonito”. Respondi: “Sou não! Sou de Guarabira, Paraíba. Já ouviu falar? Também morei muito tempo em Natal, Rio Grande do Norte”. Na bucha, ela me disse: “Natal eu já ouvi: terra dos Santos Reis! Mas essa tal de Guarabira na Paraíba, nunca não!”. Falei: “Pois a senhora é a primeira pessoa que não conhece essa cidade. Ela é sagrada. Tem a estátua de Frei Damião e também é conhecida pela incidência de óvnis”. Passaram alguns segundos e… “Lembrei, meu filho! Essa cidade só escutei uma única vez na rima de um menestrel desses que andavam pelas vísceras do nordeste. O camarada disse, numa mentira deslavada, que foi nesse canto que ele comeu mocotó de traíra. Já se viu peixe com mocotó?! Não aguentei e pipoquei no mei do mundo com minha irmã mais velha que gostava dessas asneiras rimadas. Nem ela acreditou!” E o riso correu frouxo no depósito. Parecia até que o Cristo tinha saído da cruz e cagoetado bispo, pastor, padre…! Naquele instante entrou um elemento franzino, ressacado e de cara fechada. Caminhou mais um pouco e parou todo espichado. Pescoço, braços e pernas estirados. Parecia que o condenado havia sido empalado e ali necessitava de socorro urgente. Disse o calango: “Bom dia! Se a latinha ainda for dois e cinquenta, eu quero duas, das Dores! Uma agora e outra depois!”. E sapecou a cédula de cinco reais no balcão. Ficamos em silêncio e a minha interlocutora deu preferência ao calango elétrico e, só em seguida, me confidenciou: “Esse é Ivan, o terrível! Ficou assim de tanto beber vodca. Ele acreditava que era russo. Agora ele tá melhorando o juízo, já sabe que é corno!”. Mais uma gaitada! Desse vez silenciosa!

Ao sair em direção ao carro, Ivan me olha profundamente e eu, assustado, não tenho outra saída que não seja a saudação, digo: “Aproveite o sábado de Zé Pereira, amigo. E viva a mãe Rússia!”. Ele levantou o queixo e gritou: “Viva! Se quiser conhecer a Rússia, assista ‘O lago dos cisnes’ de Tchaikovsky. É sublime, meu amigo!” E assim terminou meu atendimento.

Já em casa, de volta ao nosso quarto, encontro todo o aparato de páginas e mais páginas pedindo o toque carinhoso dos dedos e dos olhos. Conceitos e mais conceitos, pavimentando as vias do intelecto com a intenção de patrocinar a imaginação. E o estalo mágico da criação, equiparando o artífice literário a Deus. Não digo o Deus ético e gracioso que encontramos nas janelas das gentes, mas, sim, o da pós-verdade!

 

Ítalo de Melo Ramalho

8.III.2017

Crônica

Publicado 18 de fevereiro de 2017 por Ítalo de Melo Ramalho
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CRÔNICA: O frio no miolo do osso

 

Para Christina Bielinski Ramalho

 

Ato I: Manhã. O sol rasga a veste dos meus olhos. De súbito, encontro-me de pé a observar o barulho baixo e fino que vem do mundo aquariano de Aracaju. O barulho, que pela falta em si, faz muito mais eco pela ausência do que pela existência. O silêncio retilíneo risca em linha uniforme aquilo que poderia medir espaço, velocidade e temperatura externa ao corpo e interna à atmosfera.

 

Ato II: Manhã. As pálpebras dilaceradas por polegares e indicadores esculpem, pintam e reproduzem o primitivismo do corpo, além da série ordenada em fotografias da película “Ilha da fantasia”.  A teologia aqui dada é representada pelo que consome em labaredas aquilo que toma de ardência o espólio noturno da realidade. Assalta o chão da matéria homem e, num ato puramente alquímico, rompe o limite do asilo inviolável do palácio da vida.

 

Ato III: Manhã. O rubor se estende por todo o circo. Piruetas, malabares, ilusionismos… o balé dos artistas é a fonte que jorra e alimenta com leite a criança taciturna que se inaugura quotidianamente. A reprodução dos passos e saltos institui uma nomenclatura particular aos acrobatas da alcova circense.

 

Ato IV: Manhã. Segue o espetáculo espionado pelo rei. Ele, que burlou a vigilância dos atores, se pôs como espectador privilegiado do desenrolar das cenas: emaranhado de braços e abraços; mãos e nucas; pernas e lábios; línguas e pés; e boca na boca. Ele, que se arroga de ser a luz máxima dos campos de Gaia, resolveu, num ato solene e de respeito, fechar o cortinado e resguardar-se dos segredos alheios antes do frio que dá no miolo do osso.

 

Ítalo de Melo Ramalho

18.II.2017

12h19min.